Se houvesse o gênero “cinema do absurdo” como existe no teatro brasileiro, certamente Altos Negócios estaria nessa classificação. O filme alemão da Netflix que se passa em Berlim e conta a história de ascensão de dois amigos tentando enriquecer a todo custo no mercado imobiliário bombardeia o espectador incessantemente com o glamour e luxo que uma vida de riquezas através de esquemas altamente fraudulentos pode proporcionar e logo depois joga baldes de água fria ao mostrar cenas onde os personagens se perdem na imoralidade e inexistência de princípios, tornando-se automaticamente odiados pela sociedade. Um roteiro que poderia gerar uma reflexão sobre o sistema sócio-econômico corrompido ou o reflexo da forte desigualdade social nas relações interpessoais se torna um show de entretenimento onde tudo que realmente importa ganha zero foco.

Já no início do filme podemos ver que algo de errado não está certo, uma vez que Viktor (David Kross) está numa sala sendo interrogado e confessando seus crimes em parceria com o amigo Gerry (Frederick Lau) e a sua então mulher, Nicole (Janina Uhse), no entanto, aparentemente, só ele não se safou dessa. Aos poucos, com o recurso de flashbacks, entendemos a origem da ganância extrema do protagonista cuja infância e adolescência foram marcadas por um divórcio e constrangimentos oriundos de dificuldades financeiras. Enquanto o pai, um trabalhador honesto tenta, aparentemente em vão, dar o melhor para seu filho, cresce no jovenzinho a sementinha da vingança e a espera ansiosa pelo momento de virar o jogo da vida.

Assim, nos seus vinte e poucos anos, se inicia a grande saga a fim de alcançar o topo do mundo. Viktor tem a incrível ideia de comprar apartamentos em condições duvidosas que estão sendo leiloados e os vende, obviamente de forma ilegal, ainda no período de carência antes do vencimento da dívida, e é claro, oferecem financiamentos mais baratos. Em meio a incontáveis elipses de tempo, acompanhamos o desenrolar da história sem que um perrenguezinho sequer nos seja revelado e quando algum acontecimento tem a mínima chance de atrapalhar seus planos, é rapidamente solucionado de forma brilhante. Tudo acontece tão rápido que por um segundo chegamos a  pensar que o esquema é genial e que seria realmente fácil enganar centenas de pessoas. Além disso o diretor Cüneyt Kaya investe pesado nas cenas prolongadas de festas em mansões que traduzem o ápice do sucesso sob o ponto de vista dos malandros em questão e se estendem em meio a drogas, muita bebida e incontáveis mulheres.  Isso somado ao gasto desenfreado com carros, jóias e futilidades em geral mostra o velho e bom clichê de um caminho fadado ao fracasso. A escolha de provocar um looping de sensações no espectador parece ter sido too much e talvez equivocada se levarmos em consideração que quase não nos é permitida a catarse, o espectador não tem tempo hábil pra se identificar com a relevância das frustrações vividas pelo mais novo milionário-endividado do pedaço e, em pouco tempo de filme, já enxergamos o quanto Gerry e seu parceiro boa pinta são movidos pelo desespero e seguem vazios proliferando o caos maquiado de euforia, beirando o patético.

Como que um presente de Deus ou do universo, em um determinando ponto a trama ainda insiste na inútil tentativa de transformar o bon vivant que “foi corrompido pela sociedade” em alguém com quem vamos simpatizar, que não bastasse sair da prisão ileso, conta com ajuda de pessoas improváveis, tem uma segunda chance e a agarra com todas as forças a fim de se redimir, se tornar um sujeito decente, um bom pai, a exemplo do seu, e viver uma jornada finalmente digna nesse plano, deixando o mais claro possível o quanto o longa nos poupa de todos os detalhes mais importantes e humanos do protagonista e sua motivação, nos empurrando goela abaixo absurdos que teriam se tornado comuns, justificando então a borracha passada no rastro de podridão deixado pelo trio.

Por fim, apesar de ninguém do elenco exibir uma atuação de tirar o fôlego, Kross, que marcou sua carreira interpretando o par da maravilhosa Kate Winslet, em “O Leitor”, é o único que consegue mostrar algumas nuances de seu personagem e brincar em cena trazendo de leve um tom de comédia aos 90 minutos dessa narrativa tão inverossímil.

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