“A raça é cria do racismo, não o pai.”

Assim que essa frase do autor afro-americano Ta-Nehisi Coates desaparece na tela, o espectador de American Son inicia uma verdadeira jornada rumo ao inferno racial dos EUA, alegorizado no drama de uma mãe à procura de seu filho recém-desaparecido em uma madrugada qualquer em Miami. No momento em que a história se inicia para nós espectadores, a mãe, Kendra (Kerry Washington), já está submersa em seus sentimentos. Angústia, desespero e ressentimento são só algumas das facetas que a personagem já explicita logo nos primeiros minutos na tela. Sentimentos, todos profundamente desagradáveis, talvez sendo possível identificar o senhor de todos eles: o desespero.

Neste filme adaptado de uma peça de grande sucesso da Broadway (e atuado pelos mesmos atores, o que mantém uma química espetacular em cena), a tensão racial com tintas fortes está presente desde o primeiríssimo momento. Temos aqui um só cenário, uma espécie de antessala de uma delegacia. O fato de ser um prédio com reminiscências da infame segregação racial vigente nos EUA até fins dos anos 60 (são dois bebedouros, outrora destinados aos brancos e às “pessoas de cor”) só serve para nos lembrar que estamos diante de um conflito forte e duradouro e nem de longe minimamente resolvido naquela sociedade.

À tensão racial é adicionada, brilhantemente, sua verdadeira coirmã: a tensão social. Devido sua origem nada humilde, tendo um pai agente do FBI e uma mãe PhD em Psicologia, o jovem desaparecido Jamal teve tudo, menos uma infância e juventude de privações materiais. Mas, no momento em que seus pais se separam, Jamal parece ter consciência de seu deslocamento na sociedade. Preto demais para Coral Gables e bem-nascido demais para sua cor. Ele passa a ser, nas palavras da mãe, a face de sua raça em um lugar onde ele não tem o direito de esquecer sua cor de pele.

O filme é sufocante. E a escolha pelo uso de um único cenário onde todos os conflitos se desenrolam aumentam essa sensação. A mãe Kendra exala, para além do desespero, muito ressentimento. Isso fica muito claro com a chegada do pai branco de seu filho em cena e com a reação do guarda novato, que imediatamente infere ser ele o aguardado tenente responsável pela delegacia, que ele não conhece, e não o pai do moleque negro desaparecido. Ela não consegue esconder um ódio atávico por tudo que já passou e que, como toda mãe, gostaria de evitar que seu filho passasse. Em cada cena, a cada fala, o excelente roteiro assinado por Christopher Demos-Brown vai construindo o subtexto daquele racismo estrutural, daquele que quase não percebemos, o racismo comezinho, de construção da subjetividade de cada um de nós. Aquele racismo que também é praticado diariamente pelas forças de segurança e que não diferenciará, na penumbra de uma noite em Miami, um moleque negro nascido em bairro nobre daquele nascido na periferia. Tanto lá quanto cá…

O ser humano, por construções ancestrais, vive em uma realidade dual. Uma é palpável, visível aos nossos olhos. Enxergamos montanhas, prédios e estradas. Ouvimos pássaros cantando e buzinas estridentes de automóveis. A outra é uma realidade completamente imaginada, que não está em nenhum outro lugar que não nas mentes de todos nós. Estados-nação, deuses e deusas, corporações. No entanto, apesar de imaginada, essa realidade na qual estamos inseridos não é menos real. Ao contrário, vem dessa realidade imaginada as coisas que mais nos acostumamos a obedecer, seguir, admirar. Todos nós, em alguma medida, nos submetemos a essa realidade imaginada e somos ainda capazes de matar ou morrer em nome dela.

A raça faz parte de uma realidade imaginada, uma vez que biologicamente ela sequer existe em nossa espécie. E, no entanto, ela é definidora dos destinos de milhões de Sapiens através dos séculos, tal qual o do protagonista da história desse filme, que não aparece em um frame sequer. Não é necessário. Jamal representa a consciência de todos nós, que realmente enxergamos diferença onde não há.

American Son é uma porrada, é um grito, é dilacerante. É também um espelho de todos nós, em certa medida. E fala profundamente a uma sociedade desgraçadamente racista como a nossa. Com realidades e História diferentes, Brasil e EUA estão, contudo, inegavelmente conectados quando o assunto é tragédia racial oriunda da diáspora africana. Tanto que se você é brasileiro ou brasileira e não consegue se enxergar nos discursos e dores de algum daqueles 4 personagens, você não está entendendo absolutamente nada.

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