A palavra bonding refere-se, entre outras coisas, à ação de se estabelecer entre duas pessoas uma espécie de química e intimidade naturais, que tornam o relacionamento (não necessariamente amoroso, mas certamente afetivo) em algo dinâmico, interessante e profundo, e é exatamente isso que a nova série original Netflix Amizade Dolorida nos apresenta.

O roteiro escrito por Rightor Doyle é baseado nas próprias experiências do escritor, diretor e showrunner, e fez a produção ganhar o prêmio de “Melhor Série Episódica” no Festival de Cinema LGBT Outfest. Apesar do timing acelerado, com episódios que não ultrapassam 18 minutos e que nos deixam querendo mais, a premissa da série é apresentada e desenvolvida em um ótimo tom, mostrando a história de uma jovem cuja profissão representa ainda um grande tabu para a sociedade – dominatrix.

Até mesmo o ser humano mais inocente que possa existir (raríssimo de encontrar, acredito eu) já foi procurar na internet da vida relatos, vídeos, ou qualquer tipo de explicação diversa sobre a prática BDSM (e não, 50 tons de cinza não é uma boa fonte!), que consiste basicamente na experimentação – libertária, diria eu – de práticas sexuais pouco “convencionais” e que ainda sofrem muito preconceito, como por exemplo o jogo de dominação, o sadomasoquismo e os fetiches diversos envolvendo fluídos corporais pouco aceitos. Diante disso, o objetivo louvável da série é trazer para o público o olhar tolerante para o assunto, usando o humor como instrumento principal para incentivar a reflexão não apenas sobre formas distintas de fazer sexo mas ainda como o prazer deve ser algo natural, encarado sem medo ou tabu.

Assim, acompanhamos a história de Tiff (Zoe Levin), que trabalha na noite atendendo aos pedidos mais diversos de pessoas que no geral se reprimem, quando ela resolve chamar seu amigo de adolescência Pete (Brendan Scannell) para ser seu auxiliar, rapaz que, a princípio, resiste à tarefa, por medo/nojo das práticas que a moça fornece aos seus clientes. É interessante analisar aqui a relação entre os dois e a forma como aos poucos os personagens vão saindo de meros estereótipos e sendo bem desenvolvidos na trama, mostrando suas camadas – obviamente, as boas atuações ajudam bastante nesse processo.

A narrativa por diversos momentos me lembrou de outra obra que instiga bastante a discussão sobre liberdade sexual: Girls, escrita e protagonizada pela maravilhosa Lena Dunhan, lançada pela HBO e ganhadora do Globo de Ouro de melhor série e melhor atriz em 2013, que acompanha a história de um grupo de mulheres e seu cotidiano – trabalho, relacionamentos, sexo – abordando de maneira extremamente criativa e realística a juventude moderna.

Pois bem, a trama de Amizade Dolorida se desenvolve com muita facilidade, focando no relacionamento dos dois personagens, na sua dinâmica profissional e pessoal: Pete precisa superar seus estigmas a cada novo cliente, ele “sai do armário” de diversas formas, quebrando uma moralidade – por mais incrível que pareça –  tradicional, afetada pela imposição social sobre a sexualidade; já Tiff, cuja experiência de vida lhe ensinou cedo o quanto as mulheres são reféns de uma sociedade machista, que limita a sexualidade feminina e objetifica nossos corpos, passou por um processo de empoderamento que acabou resultando num “endurecimento” de sua personalidade, como estratégia de auto-defesa, fazendo com que a moça tenha dificuldade de  confiar na boa intenção das pessoas em geral mas principalmente dos homens (cá entre nós, 100% errada ela não tá, né?).

Nesse ponto, os diálogos entre os dois personagens rendem reflexões sobre sentimentos e relacionamento que vão muito além do sexo, nos lembrando da complexidade da psique humana, da influência da cultura nos nossos comportamentos e juízos de valor e do jogo eterno entre nosso consciente repressor e nosso inconsciente de desejos reprimidos.

Na narrativa, é bastante abordada também a questão do assédio sexual, mostrando que ele pode existir para ambos os sexos mas que as mulheres ainda são as maiores vítimas – vale mencionar que o desfecho para uma determinada situação relacionada à essa questão é de lavar a alma de qualquer mulher que já passou por isso ou já viu acontecer.

Em suma, Amizade Dolorida é certamente mais uma boa opção da plataforma que tem apostado no tema da diversidade, tanto sexual quanto cultural, em suas mais recentes produções. É uma série divertida e que merece ser assistida, então recomendo fortemente que o leitor vá lá dar uma rapidinha.

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