O mais novo filme da Netflix vem diretamente da Índia (a primeira produção Netflix do país), tendo sido lançado no streaming brasileiro hoje, com o mesmo nome do hit da dupla Humberto e Ronaldo (seja lá quem forem – só descobri isso porque procurava informações pelo título do filme): Amor Por Metro Quadrado (a tradução literal do original Love Per Square Foot). Dirigido por Anand Tiwari, o filme – evidentemente – traz o principal elemento de Bollywood, isto é, dança a dar com pau. Apesar disso, em muito me parece uma produção nos moldes americanos de títulos desse gênero.

A comédia romântica em questão nos traz a narrativa de dois personagens em busca de espaço: Sanjay (Vicky Kaushal) e Karina (Angira Dhar). Ele é um hindu que trabalha na TI de um banco e sofre com a falta de privacidade na casa de seus pais, além de ter uma espécie de relacionamento chove-não-molha com sua chefe Rashi (Alankrita Sahai), que o chama “carinhosamente” de “escravo”, demarcando a todo momento a relação de poder que une os dois. Não que ele estivesse com ela obrigado, mesmo porque a moça é linda “bagarai“. Por outro lado, Karina, uma cristã em plena Índia, busca a mesma privacidade, já que a casa onde mora com a mãe necessita de sérias reformas e seu namorado parece nunca pedi-la em casamento. Curiosamente, ela trabalha no mesmo local que Sanjay e ambos se conhecem em uma festa.

Sanjay sonhando com seu espaço próprio.

Durante uma dança na tal festa, já percebemos a ligação que ambos têm naturalmente, despertando um certo desafio em Rashi, a chefe que usa Sanjay como plano B de relacionamentos, caso o seu namoro oficial não dê certo. No entanto, a automática identificação com Karina faz Sanjay perder o interesse pela chefe e começar a desenvolver uma relação com a nova colega de trabalho. Ambos passando por situações semelhantes, seja a busca pela privacidade em um espaço próprio, seja a deterioração das relações amorosas, eles vão se tornando mais próximos quando Karina (responsável pelo departamento de contratos/empréstimos) nega um pedido de Sanjay para adquirir um apartamento de um programa apoiado pelo governo (estilo Minha Casa, Minha Vida). O que ele ganha é pouco demais para arcar com as despesas das parcelas. Ao notarem, porém, que este projeto habitacional é voltado tão somente para casados, o hindu e a cristã vislumbram uma possibilidade de casamento acordado para que possam ser contemplados pela iniciativa,

Certamente que esse acordo vai se tornando algo para além de uma mera conveniência para cada qual e os dois vão se apaixonando com o passar dos dias. “A lógica é o amor, casamento e casa. Nós estamos fazendo casa, casamento e amor. Estamos errados.”, argumenta Karina, em um dos momentos de crise do novo casal. O fato é que o desenvolvimento da história os levará por uma série de situações de encontros e desencontros, nas quais o amor deles será testado: o interesse é mesmo a casa, o tão sonhado espaço e privacidade que os falta, ou, para além disso tudo, há amor na relação que une o hindu à cristã?

Sanjay e Karina sonhando com eles próprios.

Apesar de tocar em temas delicados e deveras interessantes, como a lógica de poder nas relações pessoais (o caso de Sanjay com a chefe Rashi); o tema da falta de espaço e busca pela propriedade própria (a obstinada corrida de Karina e Sanjay para conquistar isso); as diferenças culturais, como a religiosidade do noivo e da noiva (hindus e cristãos, fazendo até mesmo os familiares terem, de início, pés atrás uns com os outros); o posicionamento feminino dentro de uma sociedade oriental, apesar de colonizada pela Inglaterra por séculos (Karina não aceita ser submissa ao futuro marido, quem quer que seja, estando sempre disposta a dividir todas as responsabilidades em seu novo lar); o filme parece repetir fórmulas já vistas muitas vezes, optando por turning-points esperados, flertando com o pastelão, por vezes.

É divertido, em especial, pelo contato com uma cultura diferente. Mas não vai além, sendo mais um filme deste tipo, porém com roupagem indiana.

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