A China desponta como uma das maiores escolas asiáticas na indústria cinematográfica do século XXI, seguindo o exemplo dos seus vizinhos sul-coreanos e japoneses em termos de excelência técnica. Basta ver os recentes longas chineses disponibilizados na NETFLIX esse ano, como “Pérolas no Mar” e “Big Fish & Begonia“, para perceber que, além de muito bem produzidos, eles são bem dirigidos, escritos e atuados, mostrando uma enorme evolução desde a época que eu assistia filmes sobre as comunas no rural da China na escola durante os anos 90.

Animal World, distribuído internacionalmente pela NETFLIX, é um exemplo dessa evolução técnica, não deixando nada a desejar se comparado aos grandes blockbusters do tio Sam. Contudo, essa comparação possui dois gumes. Grandes lançamentos desse tipo, como os da Marvel (confira nosso Top 10 – Melhores Filmes da Marvel), priorizam o visual em detrimento do conteúdo e deixam claro que são películas para serem assistidas em uma sala de cinema para se tirar o máximo proveito da imagem e som. Mesmo figurando entre os filmes mais rentáveis quase todos os anos, eles não fazem muito sucesso em categorias importantes nas premiações, quando muito levando prêmios técnicos. E é exatamente aqui que encontramos a história do nosso protagonista Kai-si Zheng (Yi Feng Li), que é contada com esmero técnico, mas pouca substância.

Desde “O Tigre e o Dragão” – que é uma produção em parceria entre Taiwan, Hong Kong, EUA e China – eu não via efeitos visuais e trilha sonora em uma obra chinesa no nível apresentado aqui. Com 5 minutos de exibição eu já estava completamente engajado na proposta artística, que conta com uma fotografia belíssima, na violência brutal de cenas de ação, envolvendo palhaços-ninjas-assassinos e monstros, e um roteiro que parecia querer despirocar loucamente.

Porém, com a exceção da fotografia, a violência e o roteiro instigante se tornam um massacre de pretextos mal conectados para colocar Kai-si Zheng em uma posição delicada na qual é obrigado a participar de um jogo onde as apostas são altas. Em resumo, ele fica devendo uma nota para um agiota, Anderson (Michael Douglas), que o coloca num navio que ruma para águas internacionais junto com a uma centena de pessoas nas mesmas condições devedora dele. Lá eles jogam pedra, papel e tesoura com cartas para quitar suas dívidas, fazer dinheiro ou se fuder bonito, virando cobaia de experimentos ou até mesmo morrendo caso sejam eliminados.

O que poderia ser algo interessante, com os comentários sociais que a temática permitia, acaba por se tornar uma tortura sobre análise de jogos de cartas com 3 variantes. São intermináveis suspensões do tempo para os personagens explicarem as possíveis combinações e estratégias a serem adotadas para vencer os jogos, sempre com gráficos ilustrando o raciocínio. Isso criou uma barriga gigantesca na obra, estendendo em pelo menos 30 minutos um filme que já seria grande se tivesse 1h45min. Associado a isso, as partes agradáveis, como as cenas de ação, vão ficando desconectadas da história principal, funcionando apenas para mostrar sequências de cair o queixo que se passam somente na cabeça de Kai-si Zheng.

Em suma, infelizmente, Animal World abandona a sua proposta inicial incitante para abraçar uma punhetação sobre análise combinatória que agradará apenas uma parcela bem pequena de cinéfilos, matemáticos e viciados em jogo. Embora não seja uma película da mesma qualidade das outras citadas no 1o parágrafo, ela tem seus méritos e mostra que a China chega para disputar uma fatia da torta de maçã do tio Sam no mercado internacional de blockbusters.

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