O que faz com que uma história seja considerada Ficção Científica? Guerra nas Estrelas é ficção científica ou só aventura espacial? E Jornada nas Estrelas? Melhor um pouco ou só um pouco mais cabeça? Em tempos recentes o termo SciFi tornou-se sinônimo de naves espaciais, ETs, robôs, passeios no tempo, qualquer tipo de viagem pseudo-tecnológica ou desculpa pra saciar nosso vício em teorias de conspiração. Poucos, no entanto, entendem que o termo Ficção Científica descreve (ou deveria descrever) um cenário em que as barreiras do cientificamente provado são esgarçadas ou distorcidas (por isso a palavra “ficção”). Mas algum fundo científico deveria se fazer presente, já que é a possibilidade de que tal história se desse na vida real que tempera uma boa SciFi. Se formos criteriosos no uso da palavra, no cinema dos últimos anos talvez apenas “Interestelar” e “A Chegada” possam ser, indiscutivelmente, caracterizados como tal dentre as produções maiores (deixando claro que ainda não vi o Blade Runner 2049, resenhado aqui no site).

Aniquilação, lançamento do dia na Netflix, garante sua posição em tal categoria com louvores. Após a decisão da Paramount de não exibir o filme no circuito internacional de cinemas (com exceção de Estados Unidos, Canadá e China) e vender seus direitos de distribuição fora desses países para a Netflix com o temor de que filme fosse um fiasco de público, eu supunha que o filme ou seria, de fato, uma grande perda de tempo, ou uma pérola ignorada pelos executivos tacanhos dos grandes estúdios, interessados apenas em lucros monstruosos. Felizmente para todo amante de SciFi, a segunda opção se confirmou.

O filme é baseado no best seller homônimo do escritor americano Jeff VanderMeer e que eu tive o prazer de adquirir autografado há alguns anos. Minha esposa leu o livro – na verdade uma trilogia – imediatamente após a compra e frequentemente me citava trechos do texto, dizendo ser esta uma história intrigante, mas com uma narrativa incomum. Ao descobrirmos que o livro seria adaptado para o cinema, ela me disse que seria difícil traduzir tal texto em imagens, ou, se o fosse, deveria ser algo bastante estranho. E o filme é bastante estranho.

Nesse suspense SciFi, Lena (Natalie Portman, como sempre, brilhante) é a única sobrevivente de uma missão de reconhecimento a uma região denominada Área X, um pedaço do Parque Nacional Blackwater, na costa de americana do estado de Maryland, onde, há três anos, um guarda florestal desapareceu ao investigar acontecimentos estranhos em um farol da região. Ao redor de tal farol um domo multicolorido chamado apenas de “O Brilho” se expande lentamente e qualquer pessoa ou coisa enviado para seu interior simplesmente não retorna. Lena é uma ex-militar, agora bióloga da Universidade Johns Hopkins especializada em evolução celular, que se voluntaria para tal missão (no livro a 12ª a adentrar o Brilho), em uma unidade formada apenas por mulheres cientistas. O filme alterna flashbacks, sonhos, um interrogatório, pistas deixadas pelas outras unidades anteriores e cenas de ação (poucas) para descrever e explicar os fatos misteriosos (diria surreais) no interior da Área X.

De todos os temores que a Paramount pode ter sentido para vender o filme à Netflix, o único justificável é o de que o filme é, de fato, lento. É uma história densa baseada em um conceito extremamente simples que se desdobra na construção de um universo estético e narrativo bastante sofisticado. A maneira como a história é contada, com informações dadas em tempos diferentes, exige uma narrativa mais atenciosa e, não fosse a excelente edição, talvez a história se perdesse em devaneios. As imagens são lindas, a luz e a fotografia são primorosas e os efeitos especiais salpicados com muito bom gosto. A trilha sonora, talvez ainda mais estranha que o filme em si, é fantástica e cabe como uma luva por trás da narrativa.

Curiosamente eu não li nenhum dos livros e, honestamente, fico satisfeito de não tê-lo feito antes de assistir ao filme. Pude testemunhá-lo em primeira mão, sem comparações paralelas, sem frustração por não ter visto “aquela” cena ou fala na tela. No entanto, sinto-me agora compelido a ler o texto original. Que melhor legado um filme poderia deixar do que instigar o espectador a ler o livro em que foi baseado, levá-lo a querer mergulhar mais profundamente naquele universo? A impressão final foi a de um filme belíssimo, seja para o fã da Ficção Cientifica, seja para o apreciador de boas películas… Não tão agradável praqueles acostumados com explosões, perseguições, lutas e todo o tipo de gratificação instantânea moderna. O filme exige que se pense. E pensar, ao que parece, não é atividade democraticamente praticada por todos. Aos que se aventuram para além d’O Brilho, boa viagem.

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