Fui apresentada à primeira temporada de Anne with an E pelo meu pai, que é músico e ficou encantado pela forma que a história era levada, visto a sensibilidade da trama e até mesmo a trilha sonora. Não posso dizer com propriedade sobre a trilha, posto que leiga, mas posso endossar a opinião do meu pai quanto à delicadeza da narrativa. Em algum momento do século XIX no que chamamos hoje de Canadá, uma menina ruiva, magrela e excêntrica, Anne (Amybeth McNulty), tenta levar a vida em meio à muito bullying (ser ruivo não era fácil, acredite) e traumas de infância anteriores à sua adoção (ser orfã, muito menos).

Ao que tudo indica, a história se passa após a segunda metade do século, já que a Ilha do Príncipe Eduardo, onde ficaria a cidade fictícia de Avonlea, parece ter prosperidade e autonomia. Sendo ainda uma das colônias britânicas na América do Norte, isto se explicaria pela unificação que ocorreu na década de 1860 na região do Canadá; além disso, sabemos que isto só ocorre após a abolição da escravidão, que foi em 1834. É isso que dá uma historiadora assistir a uma produção de época…

A paradisíaca Ilha do Príncipe Eduardo.

Em comparação à primeira temporada, confesso que a série não me encantou tanto assim. Em sua estreia, trouxe com mais detalhes a solidão de uma menina que tinha como maior sonho ser adotada, a dificuldade do processo de adaptação quando finalmente foi e uma imersão na imaginação da garota, que criava um mundo fantasioso para lidar de maneira mais leve com a realidade árdua. Nesta temporada, até sua metade, a história chega a ser tediosa, orbitando em uma ponta deixada no final da anterior, que cria uma história que se arrasta até que, finalmente, saia do caminho da linha narrativa e recoloque a série nos trilhos.

Após essa considerável derrapada, a série se restabelece e se concentra em elementos coming-of-age durante seu desenrolar, muito bem inseridos no contexto histórico e sem ceder à anacronismos bizarros. Anne, como já sabemos, passa por uma barra para ser aceita na escola e na cidade; sua única amiga, até então, é Diana (Dalila Bela), uma menina padrão que, diferente dos demais, tem o coração aberto à “esquisita” da classe. Somos apresentados à Cole (Cory Gruter-Andrew), que partilha com Anne o universo outsider, mas por motivos distintos. A vinda do menino transforma a dupla em um trio e isso é um conforto para os olhos do telespectador, que a essa altura torce por Anne (ainda que, pessoalmente, eu tenha um certo nervoso do jeito meio extravagante-meio efusivo dela).

Diane e Anne.

Além disso, assuntos como o primeiro beijo e toda a expectativa envolvida nessas descobertas da puberdade são trazidos com naturalidade e encaixam bem na vida de uma menina de seus 14 anos. Um episódio, em especial, me encantou e acredito que seja o ápice da série, na medida em que questiona a necessidade da mulher de ser bela, de ter etiqueta e de ser submissa. De maneira coerente, é claro; não espere aqui que em 1800 e cacetada, numa colônia inglesa no cu do Canadá, antecedente ao movimento sufragista (que vale lembrar, ocorreu na Inglaterra, de modo que sua ressonância nas (ex)colônias seria tardia), houvesse ai mulheres bradando por emancipação e tudo mais.

Sutilmente, o enredo acopla questionamentos feministas – ainda que não se chamasse nada disso de feminista na época e sim de nonsense – e isso obviamente me agrada. Como disse Mary Woollstonecraft (mamãe do feminismo e de Mary Shelley, autora do livro que deu origem ao monstro de Frankenstein) em 1792 (!): “Pensando desde a infância que a beleza é o centro da mulher, a mente se amolda ao corpo e, vagueando em torno de sua gaiola dourada, apenas procura adornar sua prisão”. O fantástico pensamento de Mary define bem a tônica em que Anne with an E escolhe colocar suas meninas – e esse é, para mim, o maior acerto desta segunda temporada.

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