Eu sei, parece que foi em outro mundo, mas a nossa distância para a angústia contida nas palavras que Anne Frank narrou em seu diário não chega a ter nem oito décadas. Eu devia ter uns treze anos quando tive o meu primeiro contato com a obra da menina alemã de família judaica que se manteve escondida com os pais, a irmã e outros judeus em um anexo secreto no prédio onde o pai trabalhava, por mais de dois anos. Sua obra é um relato jovial que mostra a passagem da infância para uma adolescência imersa em condições extremas de horror, no período mais perverso da história recente da humanidade, quase sempre sob a perspectiva turva do que era possível deduzir através do que se ouvia nos rádios.

Anne Frank teve a ideia de escrever um livro depois de surgir uma notícia que incentivava as pessoas a documentarem seus eventos pessoais ligados à guerra, uma vez que, futuramente, este material teria algum significado histórico. Ela pincela em seus escritos tudo o que se passava no cotidiano dos fugitivos, não se abstendo de divulgar seus conflitos familiares, bem como revelar aspectos mais íntimos do despertar da sua sexualidade em meio ao medo incessante de ser encontrada pelos nazistas.

Setenta e cinco anos depois daquela menininha questionar a sua própria capacidade de “escrever algo grande”, cá estamos em #AnneFrank – Histórias Paralelas, documentário dirigido por Sabina Fedeli e Anna Migotto que busca entrelaçar as páginas históricas daquele diário com a vida de cinco sobreviventes: Arianna Szörenyi, Sarah Lichtsztejn-Montard, Helga Weiss e as irmãs Andra e Tatiana Bucci.

A direção da obra é bastante simples. De um lado, Hellen Mirren (Vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “A Rainha” em 2006) é a responsável por narrar um pouco da vida de Anne Frank através das páginas do seu diário, que é um dos principais textos responsáveis por tornar a tragédia do nazismo conhecida por milhões de leitores ao redor do mundo. Do outro, cinco histórias de mulheres em idades ou circunstâncias parecidas com as de Anne, ilustrando um pouco das terríveis experiências que foram obrigadas a viver. A maneira com que esses paralelos são traçados é crua e dolorosa, mas foi possível sentir a dor sob uma perspectiva luminosa, sem jamais distanciar as feridas latentes do contexto da tragédia.

A obra ainda conta com outro elemento interessante. Como a fotografia percorre diferentes paisagens por onde Anne Frank passou ou que foram importantes ao longo da sua trajetória, resta a @KaterinaKat (Martina Gatti) a responsabilidade de guiar os espectadores ao longo desta viagem. Assim como Frank, @KaterinaKat também tem o seu diário. Aquele chato, que apita, conta like, aguça a ansiedade e acaba com a saúde mental.

Como a própria hashtag do título tenta induzir, a ideia é que fotos carregadas no Instagram, um toque visual e moderno dado pela personagem, sejam capazes de atrair jovens que ainda desconhecem a história de Anne Frank. Embora soe tosco e eu ache brega, é possível que tenha sido útil.

A fotografia que passa por Paris, Amsterdã, Terezín e Bergen-Belsen é muito bem feita. Juntamente com o material de arquivo, é possível combinar um retrato pessoal e rigoroso do que essas experiências significavam à nível bárbaro.

Contudo, o bem mais precioso deste trabalho é o testemunho humano. Enquanto Mirren e Gatti trazem momentos emocionantes para a tela, com destaque para a narradora que se desdobra para controlar todas as emoções que emanam do livro através da sua dicção e ritmo narrativo excelentes, os mais comoventes certamente vêm das cinco sobreviventes que são entrevistadas ao longo de uma hora e meia. As vozes daquelas cinco mulheres imensamente fortes e corajosas são acompanhadas por relatos de rabinos, historiadores, psicólogos, músicos, jornalistas, fotógrafos e responsáveis pela casa de Anne Frank. São diferentes camadas que se unem para tentar nos manter em constante estado de alerta, traçando um elo entre a crueldade da Segunda Guerra Mundial e as relações de ódio, abuso de poder, discriminação, racismo e antissemitismo que insistimos em contemporizar em pleno ano de 2020.

Em tempos de pandemia e flerte com o fascismo, #AnneFrank – Vidas Paralelas merece ser visto e é bom que doa ainda mais.

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