Julio Medem é um diretor que tem alguns elementos frequentemente em evidência em seus filmes/roteiros: o sexo, o amor ardente, a natureza e, por vezes, os animais. Os dois primeiros estão muito presentes em “Lúcia e o Sexo” , possivelmente o filme mais famoso do artista, que hoje assustadoramente tem quase duas décadas(!). Além deste, há também o belíssimo (e erótico) “Um Quarto em Roma“, que é uma espécie de “Último Tango em Paris” só que com personagens lésbicas, sem estupro (graças a Deus) e de baixa produção. É honesto, por fim. Em Árvore de Sangue ele não deixa nenhum desses elementos de lado e a história orbita ao redor de paixão, segredos, tabus e, é claro, sexo. Na minha opinião, muitas vezes até desnecessário (e olha que não sou nada pudica).

Rebeca (Úrsula Corberó, de La Casa de Papel) e Marc (Álvaro Cervantes) são um inusitado casal que decidem ir até a uma antiga casa de campo da família e escrever a história, organizando-se em turnos, dos dois e de tudo o que os cercou: desde familiares até desejos proibidos e absurdos velados. Ambos estão cientes que tal decisão pode e irá afetar o relacionamento dos dois, já que implica em revelar um passado mal resolvido.

Rebeca, uma árvore que os divide – literal e metaforicamente – e Marc.

É indiscutivelmente magnífico o trabalho de direção fotográfica que o filme todo recebeu (meu humilde e sincero parabéns, Kiko de la Rica), que dá o aspecto de pintura renascentista a todo e qualquer plano da obra. A começar pela cena de abertura, que nos mostra um campo nos enfiados da Espanha lindíssimo, com animais pastando, uma casa confortável (mas nada luxuosa) e uma árvore imponente. A escolha pela luz natural dá o toque paradisíaco e quase que quebra a distância do filmado e do visto ao vivo.

Andando de mãos dadas com a fotografia, a direção é impecável e não poupa caprichos nos enquadramentos, recheados de ângulos contra-plongeé e signos (muitos!) que dão sentido à história. As cenas intercalam, de maneira inicialmente brusca mas depois justificada, entre o passado e o presente daquela história, estabelecendo combinados com o telespectador para que ele possa identificar o que passa agora e o que é flashback. Esses marcadores de tempo são sutis, bastante sensíveis e entregam um resultado bem executado estética e tecnicamente falando.

Dois touros duelando.

Infelizmente, apesar de tantos elogios, o filme, que aparentemente tinha tudo para ser arrebatador, se perde aqui e ali, parece trazer muita informação afobada por ser jogada no roteiro e ter um compromisso desesperado com causar/deixar a cabeça do telespectador explodida. Essa missão estabelecida é tão obsessiva que o roteiro, preocupado em “inovar” com sua história “jamais vista”, deixa a desejar nas cenas mais banais, em diálogos que talvez nem precisariam existir ou poderiam ser menos didáticos e por aí vai. Por falar em diálogo, o maior pecado do filme é esse ostensivo investimento na linguagem ao invés de usar o melhor do cinema: as imagens, capazes de falar tanto sem precisar de nenhuma palavra.

Este investimento mal pensado sobrecarrega atores e atrizes sem preparo profissional (ainda em formação artística), como fica claro com Úrsula, que parece não ter se desvencilhado da personagem Tókio de Casa de Papel (tremendo e comum erro) e apenas a replica, fora de contexto, no filme de Medem. Não fosse o roteiro tão cheio de palavras e sim um maior investimento no gestual, na respiração, na linguagem não-dita, os atores como um todo teriam composto com perfeição a obra, já que todos, absolutamente todos, são tão belos quanto quadros impressionistas do século XIX. O resultado dessas más escolhas é uma produção de mais de 2 horas de duração, que se arrastam cansativas e por vezes irritantes (pela superficialidade que propõe em contraposição com a proposta essencial do roteiro). Beleza não põe mesa, diria minha avó. Ou, nesse caso, não faz filme bom.

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