A NETFLIX é uma verdadeira fábrica de compra de direitos de distribuição de longas que não encontraram lançamento em telonas no Brasil. Uma avalanche de títulos chegam ao seu catálogo advindos dos mais diversos países, especialmente asiáticos e europeus. Destacando-se nessa prática da plataforma, o cinema francês encontra no público brasileiro braços abertos e mentes ávidas a seu consumo. Basta ver o sucesso que obras como “Nada a Esconder” e “Eu Não Sou Um Homem Fácil” fazem, com milhares de telespectadores contabilizados e sedentos por discussões sobre as películas.

Chegando à NETFLIX nesse fim de semana, Asfalto de Sangue tenta arrebatar a sua atenção nesse saturado meio do streaming com tantas boas possibilidades e tão pouco tempo. Será que vale o investimento?

A resposta vai depender do nível de profundidade que você espera dos personagens e da originalidade do roteiro. Já adianto que ambos são rasos e batidos, praticamente formulaico do início ao fim, porém, realizado com muito competência em uma produção nitidamente modesta. No filme acompanhamos a história de Tony (François Civil), um piloto de moto numa categoria de base do automobilismo. Ao ser descoberto por uma nova equipe que almeja chegar ao topo em um curto período de tempo, Tony tem a oportunidade de sua vida – provavelmente a última dada a sua idade – de crescer dentro do esporte.

Contudo, Tony é divorciado, tem um filho e sua ex-mulher faz algumas cagadas colossais. A começar por entrar no tráfico de drogas e, sendo uma traficante cabaço, ter o produto que está distribuindo roubado, acarretando uma dívida de 50 mil euros a ser paga em 1 semana ou então ela e seu filho irão nadar com os peixes do rio Sena. Como bom pai, Tony assume a dívida de sua ex trabalhando para Miguel (Olivier Rabourdin), chefão de uma das gangues que distribuem o pó pela cidade de Paris, como entregador utilizando a suas habilidades “motociclíticas”. Em seu cangote, exigindo e ameaçando-o constantemente, Jordan (Samuel Jouy), vulgo pau mandado, pressiona nosso protagonista, que se vê cada vez mais numa situação insustentável.

Infelizmente, o longa não consegue criar de forma plausível a dualidade vida profissional versus vida do crime. Temos ali um piloto profissional de dia tentando ser o mais rápido para conseguir uma das Ducati na equipe, em uma carreira que ficou mal construída e explorada, buscando algo que gosta, quer e sempre sonhou. Se o desenvolvimento recebesse metade da atenção que a vida noturna Tony recebeu, talvez tivéssemos um longa que fosse instigante e com maior senso de urgência. Além disso, esse ciclo dia/noite com questões diferentes foi repetitivo e com pouco acréscimo de novas informações, tornando a sua primeira hora tediosa.

Uma das poucas partes interessantes de acompanhar aparece somente em seu terço final, envolvendo comentários sociais com a pendenga entre grupos étnicos distintos numa Paris cada vez mais radical. Atrelado a isso – e usado de forma bem inteligente – a luta contra a reforma trabalhista de Macron pelos imigrantes e juventude parisiense teve um peso importante na história e que trouxe finalmente o sangue prometido no título da obra.

Somando prós e contras, Asfalto de Sangue cumpre seu papel de entreter sem exigir muito do telespectador, mas também oferece para os mais atentos leituras pertinentes de um mundo que cade vez mais encontra no extremismo uma forma de pensar.

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