Esta é a crítica da 2a temporada de série e, portanto, poderá conter spoilers da 1a temporada cuja resenha está disponível aqui.


Tive o absoluto prazer de resenhar a estreia da 1a temporada de Atypical ano passado e cá estou para avaliar sua continuidade em 2018. Ao tratar a temática do autismo, a série trouxe uma pegada de comédia coming-of-age que nos convida a explorar aqueles que fazem parte do espectro – mas sem pecar em ser definida por tal, já que também mostra só mais um adolescente normal e suas descobertas. E, para nosso alívio, essa pegada continua como marca da produção, que propõe nessa segunda parte desenvolver os personagens ao redor de Sam (Keir Gilchrist) e, é claro, contar-nos mais a respeito do garoto.

Lembremos que no final da temporada anterior a matriarca Elsa (Jennifer Jason Leigh) foi infiel e teve seu segredo descoberto. Temos acesso, então, às consequências dessa traição tanto para seu casamento quanto para a estabilidade da família, que tem a mulher como alicerce – apesar de o pai ser presente e fofo. Tive muito incômodo ao encarar a forma que todos, com exceção de Sam, tratam Elsa, que é humilhada com frequência por ter cometido esse erro. Veja bem, é claro que não acho o que ela fez justificável, mas acho realmente que pegaram pesado nas retaliações e há cenas em que a violência verbal para com ela, mais no sentido psicológico mesmo, ao meu ver passam do senso comum que orbita em torno do assunto traição.

Elsa e Doug

Fora essa insistente “tortura” para com Elsa, a série vai muito bem e aprofunda com excelência o núcleo principal. A irmã de Sam, Casey (que eu não consigo enxergar como mais nova por que é uma GIGANTE), começa a lidar com uma nova fase da vida na escola longe de casa. Dividida entre ser aceita e ser ela mesma (e não passamos todos por uma fase assim?), seu relacionamento com Evan (Graham Rogers) é afetado. O pai da casa, Doug, passa grande parte da temporada maltratando Elsa de forma passiva-agressiva e lidando mal com a traição.

Sam, agora longe da psicóloga que lhe fazia bem (e que acontece de ser uma ex-crush) enfrenta desafios que são atenuados pela estrutura familiar cheia de furos. Além disso, não esqueçamos do recente término de relacionamento com Paige (Jenna Boyd), que, apesar de ser uma personagem deveras irritante e digna de ranço, foi uma importante figura na vida do garoto, afinal, foi a primeira namorada e, como consequência, o primeiro contato mais… íntimo, digamos assim. Lê-se: punheta. Agora como amiga, rola aquela tradicional recaída, adaptação ao status de apenas amigos e tensão ainda emocional entre os dois.

Sam e Paige

Dentro desse verdadeiro tornado de mudanças e adversidades, Sam se vê mais maduro como menino e também como autista, por assim dizer. Seu aparato emocional se mostra cada vez mais funcional e compreensível para ele mesmo e assistir essa autodescoberta que divide espaço com a puberdade é adorável. Para endossar isso, há continuidade na fórmula que deu certo na primeira temporada: a inserção de metáforas que ilustram na tela como ele se sente. Além disso, a primorosa direção e sonoplastia nos permite colocar as lentes, ainda que rapidamente, de alguém com autismo. A ação empática da série é brilhante e digna de reconhecimento.

Por fim, Atypical continua como uma das minhas atuais séries favoritas, sem deixar sua essência leve – mas nunca rasa -, com humor que mistura o absurdo com o pastelão – mas que dá certo – e com uma proximidade humana cada vez mais efetiva. Certamente continuarei maratonando as temporadas que vierem e retornando para detalhar a experiência – e tenho a impressão que serão relatos positivos como esse.

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