O estilo tradicional de se contar uma história é ter em mãos um personagem a ser desenvolvido em sua personalidade, em seu caráter, apresentar o conflito principal e, em seguida, o que será necessário a ele realizar para que o objetivo seja alcançado. No entanto, não é assim apenas que se conta algo. “Abençoados são aqueles que quebram as regras” (Vorph) e há um sem-número de títulos marcantes que não seguiram essa lógica. Mas a tarefa fica tão mais árdua quanto menos o padrão é seguido. Por vezes, o resultado não é nada convincente e a sensação que fica é a de que erraram na produção. O novo lançamento da Netflix será um exemplo de um desses modelos, com o terror filipino Aurora, o Resgate das Almas.

Leana (Anne Curtis) e a pequena Rita (Phoebe Villamor) são irmãs e vivem sozinhas desde a perda de seus progenitores em uma casa à beira-mar. Bem próximo dali, nas ondas nervosas que se chocam violentamente contra as pedras, o grande navio Aurora batera, naufragando e levando consigo muitos passageiros. A Guarda-Costeira tenta evitar a aproximação dos citadinos à embarcação. Mas, sem fazer qualquer menção de vigilância, abre espaço para que os moradores atuem no sentido de encontrar os corpos perdidos em troca de uma recompensa. Basicamente, Leana, com a ajuda de dois outros habitantes do local, tentará realizar o trabalho.

A casa “farol” para as almas.

Sabedores do gênero que etiqueta a produção, já nos preparamos para assombrações desmedidas por parte das almas perdidas, cujos corpos permanecem submersos diante do desastre ocorrido. Fosse aquela forma tradicional de se contar uma história descrita na introdução, suspeitaríamos de que essa relação com as almas e as protagonistas resultariam na redenção ou condenação de algo em suas vidas, remetendo provavelmente a um passado próximo ou ao presente. Mas, para a quebra de nossa expectativa, nada disso acontece. Evidentemente – e isso é demarcado pelo próprio subtítulo em português: “o resgate das almas” – há uma relação direta entre as personagens e os corpos/almas que se encontram perdidos no infinito mar ou trancafiados em partes obscuras da embarcação. Essa relação, porém, é meramente marcada pela proximidade da casa e do acidente. Nada mais.

Sem aprofundar em qualquer – mas absolutamente qualquer um – dos aspectos constituidores das personagens, o que acompanhamos nas sequências que se seguem é um desenrolar de breves acontecimentos que envolvem as almas aprisionadas no navio, em suas tentativas de libertação do local, mas ainda prisioneiras do mundo terreno. Tudo isso completamente – mas completamente mesmo – desprovido de todo e qualquer suspense. Terror, principalmente, passa longe, não tendo uma só cena – umazinha sequer – de medo ou susto efetivo. E olha que, quando o lance é espírito, parceiro, eu sou o maior cagão! Aurora, ao se colocar como terror ou suspense, falha miseravelmente na construção desse universo, portanto.

O material, porém, era interessante e alguns planos são muito bonitos na composição do cenário local. Mas para por aí. Quebrando aquela lógica clássica, o espectador se perde em meio à completa falta de ligação entre o acidente – motivador principal da história – e o papel das protagonistas em meio a isso. A sensação plena que ficamos, quando da conclusão do longa, é a falta de sentido em ter se contado uma história que vai de nenhum lugar para lugar nenhum. Ainda que esboçando muito sutilmente uma crítica à ganância que também é presente nas Filipinas (na verdade, em qualquer lugar onde estiver presente um único ser humano, ao menos), o filme não fala sobre nada. Vazio em conteúdo, em tensão, em suspense e em terror. Na relação direta de sua história, a produção naufraga a si mesmo.

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