“Quem nasce em Bacurau é o quê?”

 ‘É gente.”

Não era um filme da Marvel, nem era mais uma edição da franquia Harry Potter. Não era uma cabine de imprensa ou uma exibição de gala num festival. Era uma sessão comum, às três da tarde de uma sexta-feira, num tradicional cinema do aprazível Largo do Machado. Na plateia, uma maioria de senhorinhas e senhorinhos. Plateia que, ao final de Bacurau,  o novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, aplaudiu no cinema. Como eu, eles sabiam que tinham acabado de assistir a uma das mais geniais produções da filmografia nacional de todos os tempos.

O medo de dar spoilers é grande, então, vou tentar resumir uma sinopse que não entregue muita coisa. Em um futuro próximo, Bacurau, uma minúscula cidadezinha no sertão de Pernambuco, se vê envolta em estranhos acontecimentos. Depois de, literalmente, sumir do mapa, violentos e inexplicáveis assassinatos começam a acontecer. Seus moradores, uma galeria de figuras deliciosas, como a médica alcoólatra Domingas (a lenda do cinema Sonia Braga) e o estilizado e estiloso justiceiro Lunga (Silvero Pereira), precisam lutar contra terríveis inimigos sedentos de sangue. Louco, não? E mágico.

Leitor Metafictions, o que se vê na tela é uma obra construída à perfeição e cinematograficamente inesquecível. Bacurau é o topo de um cinema que consegue ser entretenimento, reflexão, ousadia visual, preciosismo técnico, declaração de amor à sétima arte e, acima, o mais político, no mais elevado aspecto do termo, de nossos filmes.

Essa coleção de acertos começa com um roteiro de extrema inteligência e elegância assinado por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho. A história se organiza sem pontas soltas e até mesmo as falas de mais “presença”, como a que abre esta crítica, dita na tela por um adorável ator mirim, não soam pedantes, mas funcionam organicamente em um texto lapidar. Nas mãos competentes de Mendonça Filho e Dornelles, numa aula de direção, o resultado é incomparável.

A edição de Eduardo Serrano merece destaque. A tia do ritmo bateu palminhas quando se deparou com ela. É uma montagem meticulosa, precisa e, acima de tudo, crucial para a narrativa e desenvolvimento da história. Enche os olhos, da mesma forma que a excelente trilha sonora enche os ouvidos.

Aliás, é incrível como na produção os aspectos técnicos se harmonizam com a narrativa. Deveria ser óbvio, né? Mas, infelizmente, não acontece sempre. Aqui, não. Uma técnica poderosa é evocada para servir a uma narrativa poderosa.

Como, por exemplo, a fotografia. Um dos pontos altos de Bacurau é como ele orquestra uma homenagem ao cinema. Quase como uma rapsódia (e chamo por Macunaíma aqui), ele faz uma colagem de gêneros das telonas. Ora como pastiche, ora com alusões e, o tempo todo, com respeito e admiração, o longa evoca musicais, cinema B, western, ficção cientifica, violência tarantinesca, Cinema Novo, chanchadas. É uma festa visual que explode num trabalho sofisticado de fotografia. Pedro Sotero, que já havia trabalhado com o Kleber Mendonça Filho nos excelentes “O Som ao Redor e “Aquarius” e que, descobri ainda agora, também assinou uma das minhas fotografias do coração em “Gabriel e a Montanha”, atinge aqui um nível a ser usado como base para se pensar competência nessa arte.

É imperativo, também, falar do elenco, um dos pontos mais incensados nas matérias sobre o filme. Mesclando atores “profissionais”, como Sonia Braga e Udo Kier (ícone, simples assim), aos moradores do povoado de Barras, no Rio Grande do Norte, onde foi filmado, Bacurau é um trabalho de ensemble. É um coletivo de atuações que, sustentadas umas nas outras, floresce em emocionante simbiose. Bravos.

Mas a produção é, também e fortemente, um libelo político, uma declaração. A alegoria visual do filme é uma sólida e competente reflexão política sobre o Brasil (de todos os tempos) e sobre as gentes brasileiras. No entanto, ele não cede a tentações facilitadoras que poderiam levá-lo a uma preguiça panfletária. Nas suas muitas camadas de significação, Bacurau explora um pensamento estético-político que chama para si de forma contundente a noção de “todo” no cinema moderno, que Deleuze afirma se dar no espaço entre duas imagens, onde cada uma delas se lança a um lugar fora do filme para, ao retornar a ele, criar uma terceira imagem, que não é as outras duas.

Bacurau é ponto alto de um cinema que atingiu, há tempos, sua maturidade. É diversão das grossas também. É lindo. É necessário. É desconcertante. É, também, como lembrado nos créditos finais, uma produção cuja “realização e distribuição (…) geraram mais de 800 empregos diretos e indiretos, além de ser a identidade de um país. A cultura é indústria”. Alguém mande isso para o whatsapp do presidente.

Bacurau  é uma obra-prima. E seria o Brasil se o Brasil conhecesse o Brasil.

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