Até os meus 17/18 anos de idade, um dos grandes programas que eu fazia era ir ao cinema com meus pais. Desde moleque esse era o passatempo da família nos finais de semana. Íamos ver algum filme que decidíamos na hora, jantávamos em algum lugar e depois voltávamos para casa. Óbvio que, nessa idade, isso já não acontecia com a mesma frequência de outrora em função do álcool, das drogas e principalmente das minhas desesperadas e raras vezes frutíferas tentativas de pegar mulher em algum antro na Baixada Fluminense.

Faço este intróito porque nunca vou esquecer que a última vez que eu e meus pais fizemos isso foi no shopping Rio Sul, ao qual fomos despretensiosamente para ver qualquer desgraça que estivesse passando. Foi então que me deparei com um Russel Crowe ainda desconhecido do grande público empunhando um gládio e me chamando para ver “Gladiador”, que estreava naquele final de semana. Sem ter visto trailer, sem ter lido nada a respeito e sem nem ter me ligado que o filme era do mesmo diretor de “Blade Runner” e “Alien”, Ridley Scott (afinal, não havia internet), eu sentei meu rabicó na sala de cinema, saindo dela duas horas depois absolutamente estupefato com um dos maiores filmes já feitos.

“Gladiador” começa com uma batalha entre o exército romano e os bárbaros germânicos absolutamente épica, com direito a um grito de guerra que o brasileiro não poderia deixar batido, eternizando-o nesse vídeo. Aquela, portanto, era a referência que eu tinha de uma obra audiovisual envolvendo romanos e bárbaros germânicos. Mesmo sabendo que a possibilidade deste “Bárbaros” chegar aos pés do que eu vira em “Gladiador” era ínfima, foi com um espírito de querer PARA CARALHO gostar da série alemã que eu comecei a maratona. Após 6 episódios, saio com a sensação de ter visto uma novelinha com sangue (ainda que a História nos conte que boa parte da trama rocambolesca é real) e com saudade de ver como o fusca do germânico anda.

Aqui acompanhamos uma espécie de romantização dos eventos que levaram à famosa Batalha da Floresta de Teutoburgo no ano 9 DC, na qual boa parte dos povos germânicos da época conseguiu se livrar do jugo romano para nunca mais voltar a ser subjugado. Acompanhamos os acontecimentos nas vidas de Arminius (Laurence Rupp), Thusnelda (Jeanne Goursaud) e Folkwin (David Schütter) enquanto Roma aperta a corda no pescoço da Germânia e, assim, incita pensamentos de revolta.

Com claríssima inspiração visual e de estrutura narrativa em séries já consagradas como “Vikings” e “O Último Reino”, Bárbaros tem o grande mérito de mostrar uma perspectiva que não a romana nessa relação. A produção audiovisual foi bombardeada ao longo de toda a sua história com épicos fantásticos e tosqueiras horrorosas exaltando o Império Romano, ainda que mostrem também suas facetas mais cruéis, e ver uma obra na qual o romano é o inimigo claro e manifesto – o que, sendo o romano o invasor, faz todo sentido – é salutar e traz um certo frescor.

Para além disso, de bom há um esmero técnico aqui na fotografia e não muito mais. Embora boa parte do que ocorra seja corroborado pela História, até mesmo muitas das coisas bem novelescas apresentadas, o roteiro foi feito em forma de um dramalhão, romantizando e exaltando o paganismo germânico em detrimento do paganismo romano e trazendo um triângulo amoroso a respeito do qual o espectador não poderia se importar menos.

A produção de arte vai por um mesmo caminho, mostrando figurinos e cenários genéricos, MUITO parecidos com o que vemos em “Vikings”. Eu não sei dizer com certeza, mas me parece improvável que os povos germânicos usassem as mesmíssimas roupas e morassem nas mesmíssimas construções que seus descendentes vikings algo em torno de um milênio depois.

Por sua vez, a direção, guiada por um roteiro preguiçoso, toma decisões esdrúxulas. Um bom exemplo é que absolutamente tudo que acontece na série parece ter ocorrido em uma semaninha, com todas as tribos de 15 a 30 minutos correndo de distância uma da outra e com situações que simplesmente se contradizem no que se refere à passagem do tempo. Há uma cabeça fincada na ponta de uma lança que, a priori, estaria ali há meses, mas segue lá como se tivesse acabado de ser colocada.

Fica uma impressão de ser só mais um produto feito na esteira dos outros sucessos já citados, sem trazer uma alma, uma personalidade própria. Isso tudo, contudo, poderia ser perdoado se a série abraçasse sua vocação de entretenimento e trouxesse cenas de ação de tirar o fôlego. Ocorre que isso não acontece e a batalha final, apesar de ter um ou dois momentos interessantes, é boba, igual a praticamente tudo que a gente tem visto por aí.

Com uma História virtualmente inexplorada, os chamados povos bárbaros têm uma mitologia e cultura riquíssimas a serem exploradas em possíveis temporadas posteriores, resta-nos torcer para que, se tivermos uma continuaçã, que ela ocorra de forma mais inspirada.

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