Quando eu era um adolescente nerd de almanaque, obeso, punheteiro e voraz consumidor de videogames – o que é basicamente o que eu sou ainda hoje só que sem a parte do adolescente -, eu também era absolutamente maluco por quadrinhos. Apesar de ter parado de ler os lançamentos semanais há quase 20 anos, eu ainda tenho um carinho enorme por essa mídia que tem sido explorada inclementemente por Hollywood e achincalhada por seus produtores com uma frequência muito maior do que o que seria aceitável.

Uma das coisas que eu mais gostava nessa época eram as histórias que sempre chamei de “e se?”. E se Wolverine entrasse na porrada com o Conan? E se o Justiceiro se juntasse com O Motoqueiro Fantasma? E se o Super-Homem tivesse caído na Rússia? Essa e outras bizarrices eram recorrentes e um frescor dentro das histórias lineares de nossos personagens favoritos. Às vezes a coisa ficava muito boa. Às vezes uma merda. E este Batman Ninja, que acaba de ser disponibilizado no Brasil pela Netflix, consegue habitar nestas duas realidades ao mesmo tempo.

Com uma direção de arte – para a qual eu tenho até dificuldades em achar palavras de tão absurdamente linda que é – assinada por Takashi Okazaki, o mesmo malandro do hoje clássico “Afro Samurai”, e um roteiro completa e negativamente despirocado de Kazushi Nakashima, conhecido roteirista de seriados japoneses que o ocidente lamentavelmente entende como estilo Power Rangers, acho que é óbvio o que é sublime e o que é uma bosta amalucada.

Existe uma coisa chamada suspensão de descrença. Sei que boa parte de vocês já sabe do que se trata, mas eu vou explicar assim mesmo. É aquele esforço que todos nós fazemos para conseguir curtir obras absolutamente inverossímeis. É necessário deixar a descrença de lado, suspendê-la, para embarcar em qualquer mundo fantástico ou de ficção científica por exemplo e só assim conseguir extrair dela tudo que ela tem de bom. É algo que fazemos até mesmo involuntariamente quando estamos vendo QUALQUER filme de herói ou de ação, com gente voando, não tomando tiro e escovando o dente sem pasta.

Sim, isso acontece.

Pois bem, eu não lembro de ter visto um filme recentemente que tenha me pedido uma suspensão de descrença de forma tão agressiva quanto esse aqui. Já começamos, é claro, aceitando logo de cara a impossível existência de um cara como o Batman e de todo o seu universo já bem estabelecido. Depois disso, o roteirista nos pede para achar tranquilo que o Gorilla Grodd tenha inventado uma máquina do espaço-tempo e absolutamente todos os personagens relevantes do universo do Batman – e mais ninguém – foram transportados para o Japão feudal, menos o Batman, que convenientemente para a trama só chega lá 2 anos depois que TODOS os demais haviam chegado embora estivesse no mesmo lugar. E isso, meu amigo, é fichinha perto de tudo o que acontece depois e, principalmente, do final. Eu tô me coçando aqui para dizer as maluquices sem totalmente sem qualquer pé na realidade que acontecem, mas vou poupá-los dos spoilers.

Este caráter alucinado do longa animado o prejudica para caralho. Mas, puta que o pariu, técnica e esteticamente ele é tão deslumbrante que dá para fazer uma forcinha e, quando conseguimos nos libertar das amarras da verossimilhança, é o paraíso. Temos aqui pelo menos 4 estilos de animação distintos entre si, todos estonteantemente lindos e apropriados para os momentos que aparecem, um desenho de personagens para o qual eu não consigo pensar em um adjetivo então inventarei fuderoso, uma dublagem primorosa (em japonês, inglês e português), trilha sonora cativante e ação arregaçante quase que o tempo todo.

Mas tudo isso a serviço de uma história capenga, diálogos mais ou menos e de um Batman bobo, que fala coisas como “o que você vai fazer agora, Coringa?”, além de ser derrotado quase que o tempo todo e se disfarçar de missionário ocidental no Japão desenhando um morcego no cocoruto (abaixo). A verdade é que esta não é uma história ocidental com traços e estética orientais, mas basicamente um anime com todos os clichés possíveis da animação japonesa, que se vale do Batman para contar uma história com robôs gigantes no japão feudal. E, de novo, esta nem é a coisa mais bizarra a respeito da qual se pede a sua suspensão de descrença. De verdade, foram dois os momentos em que eu dei uma gargalhada espontânea tamanho era o exagero do absurdo de tudo que era mostrado.

Se você, assim como eu fiz e falhei parcialmente, fizer um esforço sobre-humano para não levar em consideração o total, absurdo e espetacular exagero da escrita, você vai então estar diante de uma experiência sensorial, com uma animação de beleza ímpar e coisas absolutamente inesperadas diante da pura improbabilidade de que alguém teria pensado nelas.

Santo disfarce de merda, Batman!

Fica aquela sensação claríssima de que esse poderia ter sido um marco dentro do longo histórico de boas animações da DC, mas que ao invés de se perguntar “e se o Batman fosse ao Japão feudal?”, perguntou algo como “e se o Batman fosse o Jaspion?”.

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