A expressão “sair do armário” vem do movimento LGBT dos anos 60 nos EUA, “come out of the closet”, e hoje em inglês é mais comumente abreviada para “come out”. Ela significa assumir sua orientação sexual e há quem diga – e eu concordo – que surgiu meio que a partir de uma mistura com outra, que é “skeletons in the closet”. A segunda, literalmente “esqueletos no armário”, fazia alusão a um segredo digno de vergonha, capaz de destruir a reputação de alguém ou de uma família. E, pra fechar, “esqueleto” remete a um imaginário de doença e morte. Ou seja: historicamente, tudo relacionado a mostrar sua orientação sexual é conflituoso, trabalhoso e, consequentemente, dolorido, como podemos ver a partir da semântica desses vocábulos.

Beach Rats conta a história de Frankie (Harris Dickinson), um moleque de seus 17 anos que luta internamente contra o fato de ser gay. Inserido em um ciclo típico adolescente, onde impera a cultura da virilidade e da afirmação dela, ele se vê mentindo para si e para os que lhe cercam o tempo inteiro. Aos amigos finge que tem uma vida (heteros)sexual ativa, chegando a sair com a garota das quebrada para dichavar seu real interesse, que é pelo sexo oposto. 

Falando em dichavar, o menino investe bastante na muleta das drogas pra suportar a rotina fake. Em casa, apesar de ter uma mãe aparentemente compreensiva, ele se fecha no próprio mundo e, por alguns minutos, dá vazão ao “proibido” juntando com outro tabu: o sexo virtual. É em sites de sexo casual online que Frankie consegue se libertar um pouco. Por conta disso, o estigma de que ser gay é algo negativo aumenta e intoxica o moleque ainda mais, já que as relações que ele encontra no aplicativo são rasas e objetificadoras; de certa forma, na cabeça dele pode ser uma forma de isolar a ideia e grudar o seguinte bilhete: “tá vendo, é isso aí que você quer pra sua vida?”

Para legitimar mais ainda a construção desse universo gay como algo merda, em contraste há a relação com Simone (Madeline Weinstein). A garota é bonita, gostosa, maneira, jovem; tudo que os amigos dele, por exemplo, gostariam de ter. E Frankie tem… e não lhe basta. Um combo de frustração e de não pertencimento recheia o moleque por dentro e conforme o filme rola vemos os desdobramentos dessa bola de neve.

É interessante e necessária a história que o longa se propõe a trazer – e desenvolve seguramente – para desconstruir o mito de que, por vivermos em uma época mais confortável em termos de debate, ser LGBT é mais fácil. Não. É fato de que há, sim, mais opções onde se apoiarem, mas é também óbvio de esse conforto todo ainda está longe de contemplar a maioria.

O filme, por se passar no Brooklyn, passa essa mensagem com precisão: os fatores culturais podem até ter se flexibilizado dos anos 50 pra cá, mas a “cultura hétero” como foi estruturada secularmente é arraigada ao másculo que come geral – mulheres -, não chora ou sofre e coisas do tipo. E a história de auto-repressão rolar logo ali num dos distritos de Nova Iorque, conhecidamente estereotipada como acolhedora e pra frente, é essencial para evidenciar que ainda há bastante o que ser feito.

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