Eu lembro bem daquela manhã. Eu devia ter uns cinco anos de idade e estava brincando na sala, no chão. Sentada numa poltrona, minha mãe me olhava. De repente, levanto os olhos e me deparo com lágrimas correndo pelo rosto dela. Imediatamente perguntei o que tinha acontecido. A resposta dela foi: “Eu te amo tanto”. Nunca vou esquecer a sensação de pavor daquele momento, o peso de sentir-se amado por um amor ao qual eu não podia fazer nada, que eu não tinha pedido, embora precisasse dele. Naquela sala, eu senti pela primeira vez o caráter assustador do amor.

Anos e alguns divãs depois, essa cena ficou adormecida dentro de mim. Hoje pela manhã ela foi despertada pelo excelente episódio Arkangel, da nova temporada de Black Mirror. Dirigido pela estreladíssima Jodie Foster, ele conta a história de Marie (Rosemarie DeWitt), que, desesperada após quase perder sua filha Sara (Brenna Harding), implanta um artefato no cérebro da menina chamado Arkangel. O implante permite que os pais tenham acesso à localização dos filhos e a tudo que eles dizem e fazem. Mais, o Arkangel permite que os pais possam filtrar o que seus rebentos veem, transformando qualquer visão traumática (violência, dor, por exemplo) em pontos borrados, blindando-os contra qualquer tipo de estresse. Não querendo dar spoiler, é óbvio que isso vai gerar consequências pesadas.

Arkangel resume bem a proposta da série. Desde o início, Black Mirror investiu numa proposta de pensar o nosso tempo e seus absurdos. Este episódio toca em questões-chave do programa: tecnologia, privacidade, relacionamentos humanos, limites. E o faz de forma impecável.

Começando pela direção. Jodie Foster dispensa maiores apresentações. Uma das maiores atrizes de sua geração, há tempos ela já se revelou uma diretora de mão cheia. Aqui, sua marca se faz sentir. Foster sempre privilegiou em seu trabalho diretorial o foco nas histórias pessoais, dos seres comuns, e suas relações com a macro História, com o Zeitgeist. Vejam por exemplo os seus Feriados em Família e Mentes que Brilham. Em Arkangel, ela dá conta da discussão acerca da tecnologia invadindo os espaços mais íntimos (até mesmo o mais íntimo deles, o corpo) e de como tal invasão fomenta e é fomentada pelos nossos desejos mais humanos. Além disso, a variedade de planos abertos e fechados mostram que a diretora pretende ir além, que a questão é mais que sci-fi, é “sci-human-fi”. Essa humanidade se agiganta na magistral condução dos atores, levando as duas atrizes principais a performances sólidas e pensadas em harmonia com a visão geral do episódio.

Um dos maiores trunfos de Black Mirror é a sua relevância. Se em temporadas passadas pontos como redes sociais, invasão de privacidade e política foram explorados de forma bastante precisa, Arkangel, ao mesmo tempo em que reafirma a proposta da série, abre uma vereda nova e densa: a delicada arquitetura do amor entre pais e filhos e os limites entre proteção e opressão. E também mostra que conhecimento total pode levar à brutalidade total. É forte, é lindamente filmado, é necessário. Como professor, ao fim do episódio, não contive um sorrisinho cínico imaginado como seria uma reunião de pais que começasse com a sua exibição.

A Netflix deu mais uma bola dentro. E nos fez pensar que, além das açucaradas histórias de Hollywood, o amor tem um outro lado que também gerou estes versos de Hilda Hilst:

Te amo como as begônias tarântulas amam seus congêneres, como as serpentes se amam enroscadas lentas algumas muito verdes outras escuras, a cruz na testa lerdas prenhes, dessa agudez que me rodeia, te amo ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara me faça menos osso e mais verdade.

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