Começar uma crítica sobre Black Mirror exaltando a genialidade de seu criador, Charlie Brooker, é chover no molhado. Já fiz isso de forma quase homoerótica na nossa crítica da 4ª temporada de Black Mirror. Trata-se das mentes mais argutas, críticas e ácidas que a televisão já nos deu e isto transborda em tudo que leva seu nome. Então, desta vez, vou fazer diferente e vou aqui exaltar o monstro ainda largamente desconhecido que é Andrew Scott, o ator irlandês que aparecera ao mundo como a melhor coisa da série do Sherlock Holmes – e numa série estrelada por Benedict Cumberbatch e Martin Freeman isso não é moleza – e que estrela este que é para mim o melhor episódio desta curta 5ª temporada da série.

Em Smithereens, Scott é Christopher, um motorista de um aplicativo que claramente faz referência ao Uber que sequestra o estagiário de uma rede social que claramente faz referência ao facebook. Isso é o que está na sinopse da própria Netflix, mas eu considero até mesmo um spoiler. Após o sequestro, as coisas se desenrolam, degringolam como sempre degringolam em Black Mirror e seu desfecho é brutalmente honesto, honestamente melancólico e melancolicamente próximo a nossa realidade de hoje.

Antes de falar de Scott e também de todo o resto do elenco, o que é preciso ser dito é que este é um episódio um pouco fora da curva. Em geral, as tecnologias que servem como pano de fundo para a discussão sobre como nos relacionamos com a tecnologia e por meio dela em Black Mirror são exacerbações do que já existe, mas coisas que efetivamente ainda não funcionam daquela forma, dando uma impressão de que os episódios se passam talvez num futuro muito próximo, mas ainda muito distante de nossa realidade. Afinal de contas, nós nunca nos comportaríamos daquela forma, não é verdade? Smithereens destoa disso porque é passado totalmente no presente (inclusive faz questão de dizer isso explicitamente logo no início), sem o uso de qualquer tecnologia que não exista atualmente exatamente como apresentada.

Deixar isso claro se torna fundamental porque se trata também de uma história que se vale de uma motivação até certo ponto um tanto trivial, sem qualquer invencionice de roteiro, de modo que temos aqui um episódio da maior série de ficção científica da atualidade que não tem ABSOLUTAMENTE NADA de ficção científica. É nada menos que um thriller dramático sobre um cara desesperado por um motivo realmente destruidor de vidas, mas que é comum a tanta gente.

É aqui que vem a tacada de mestre do episódio ao escalar como seu protagonista um sujeito com o alcance dramático de Andrew Scott, uma vez que esta era uma história que tinha tudo para ser comum, mas que, pela força do roteiro e da atuação deste senhor, se torna um dos melhores episódios de todas as temporadas da série. O casting é perfeito também ao escalar nomes desconhecidos, mas apropriadíssimos em seus papéis, além de conseguir a participação também excelente, ainda que abaixo da de Scott, de Topher Grace, como o Mark Zuckerberg genérico.

Enfim, evitei aqui de falar do que acontece no episódio porque trata-se de uma porrada na boca do seu estômago, mas uma porrada que não é dada pelo nosso temor do que pode vir a ser, mas sim pela nossa percepção do que é, do que já vivemos e de toda a insidiosidade dessa sociedade em que o parecer é tão mais importante que o ser, na qual as pessoas já não vivem suas vidas como gostariam e poderiam.

É uma tapa na cara, uma ficção científica que nada tem de ficção e tampouco de científica, uma crítica clara, inteligente e ácida às nossas vidas sendo controladas e monitoradas pelas corporações e a impotência que todos temos diante disso. E, mais, é um tour de force de Andew Scott, o que por si só deveria ser o suficiente pra você assistir.

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