Coloco Mozart, por acreditar que escrever é tocar piano em teclas de um instrumento outro. Concomitantemente, tomo uma taça de vinho enquanto tento pensar em um jeito de descrever Bandersnatch sem exageros, sem estragar surpresas e também sem deixar a desejar. Desafiador, confesso. Não se trata de um dos filmes mais difíceis que já assisti – muito longe disso, até -, no entanto, algo estranho me paralisou quando os créditos rolaram. Não sabia se havia acabado, inclusive. Fiquei engasgada apesar do meu longo silêncio daqueles noventa minutos; no quarto ouvia-se apenas o teclar do botão que decidia o que aconteceria com Stefan (Fionn Whitehead). Eis o diferencial da produção original Netflix: oferecer ao telespectador opções durante a trama, trazendo a estranha sensação de comando sobre a vida de alguém.

Agora ouço Shostakovich, meu preferido, mesmo que eu não saiba falar o nome. Penso nesses gênios das antigas vendo nosso mundo de agora e torcendo o nariz. O que Foucault diria, depois de tanta energia gasta em alertar a todos da crescente tendência de vigia e punição, depois de cunhar o conceito de panoptismo que descriminava toda a observação que estamos expostos, analisados, julgados, podados – voluntariamente ou não – a todo tempo. Teorias essas que não parecem nada conspiratórias com o cenário da Era Virtual.

O ano no filme já inicia com um beliscão: 1984. Falas provocativas gritam nos nossos ouvidos pra encarar uma conclusão um tanto niilista: não temos poder sobre nada. Isso inclui você aí, telespectador; ou seria melhor dizer carrasco? Explico o porquê: colocam-nos na aflição de decidir a vida daquele rapaz, e essas escolhas parecem carregar o carma do fracasso. Temos uma jornada de looping metalinguístico: Stefan é um programador que, inspirado por um livro em que há finais alternativos para a mesma história, inicia a criação de um videogame em que o jogador escolhe o futuro dos personagens.

O ápice do filme, no entanto, está na profundidade de um roteiro que joga no caldeirão uma série de signos muito bem escolhidos – a começar pelo próprio nome da produção, que é uma referência ao grandioso Lewis Carroll e seus icônicos bandersnatches em Alice no País das Maravilhas. Nesse sentido, ao dissecar o roteiro e analisar a obra com olhos cautelosos, há inúmeras escolhas espetaculares filosoficamente. Dado momento, quando há uma tentativa da parte de Colin (Will Poulter), um programador de jogos bem sucedido, de ajudar Stefan a sair da piração, é posto em tela o livro todinho de Huxley, “As Portas da Percepção”. Uau.

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.” – William Blake

Sei que o que sustentou todo o alvoroço em torno da estreia foram duas coisas: o peso de ser derivado da renomada série Black Mirror e o recurso inovador da interatividade na obra. No entanto, engana-se quem atribui a honesta qualidade do filme a uma dessas características. A ferramenta da escolha é usada com acidez e não se trata de um simples entretenimento, como esperado, mas como forma de endossar a crítica e, mais que tudo, intensa reflexão que a experiência inflige (não há palavra melhor) ao telespectador-personagem.

Curiosa, assisti ao filme duas vezes seguidas. Escolhi todas as opções ofertadas, ludibriada como qualquer ser humano com essa falsa sensação de poder. Na primeira vez, senti pesar. Na segunda, entrei no jogo sem titubear. Surpreendentemente, a segunda leitura sobre a obra me fez valorizá-la mais, posto que de primeira achei um tanto confuso e sem ponto específico a trabalhar. Mas a mensagem pode não ser clara, mas existe: não há controle absoluto sobre o destino, há apenas variações do mesmo. Com ou sem botão. O bandersnatch, monstro inventado por Lewis há tanto, manifesta-se uma hora ou outra e nos resta encará-lo; não há escapatória.

“Whoever controls the media, controls the mind” ― Jim Morrison

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