Abrindo a 5a temporada de uma das séries mais bem-sucedidas da Netflix, Striking Vipers certamente cumprirá um dos objetivos primordiais da obra ao provocar uma sensação de reconhecimento em muitos espectadores, uma vez que aborda temáticas que vão desde os desafios de manter um relacionamento de longa data até a fetichização de cenários e personagens fictícios de universos de entretenimento.

A trama desenvolve a dinâmica entre os 3 personagens principais, o casal Danny (Anthony Mackie) e Theo (Nicole Beharie) e seu amigo Karl (Yahya Abdul-Mateen II), amigos que dividiam a rotina em um apartamento conjunto durante a juventude mas que com o passar do tempo acabam seguindo diferentes caminhos na vida – tema que por si só já aborda uma realidade que infelizmente ocorre com muitas amizades. Vemos Danny e Theo se tornaram pais e seguirem aquela velha rotina monótona de uma vida “de casa para o trabalho”, sem muitas surpresas. Enquanto Karl, que mesmo na juventude já era mais boêmio e largadão, torna-se o típico estereótipo do “heterotop” quarentão, ostentando a vaidade através de um corpo musculoso, conectado às redes sociais e tecnologias e levando uma boa vida de solteirão comedor de novinha.

Após o que parece ser um grande hiato na amizade, vemos os personagens se reencontrarem no aniversário de Danny e, a partir daí, observamos a situação-chave se criar para os personagens a partir do presente de aniversário dado por Karl: a versão mais nova do game de luta antigo que os amigos jogavam, Striking Vipers, que é uma referência bem explícita dos clássicos jogos de porrada que todo mundo conhece. Mas essa nova versão, claro, só poderia ser marcada pela boa e velha tecnologia do cookie cerebral, já conhecido pelos espectadores da série, capaz de replicar a consciência humana e as sensações do corpo físico num cenário de realidade virtual. Assim, os jogadores podem, literalmente, sentir cada golpe dado pelo oponente, mas, para além disso, são também capazes de sentir outros estímulos físicos mais atrativos e interessantes, como cheiro, textura, gosto, toque, o que obviamente só poderia resultar na única coisa que une os seres humanos: putaria braba – aliás, muito bem representada pelos estereótipos dos personagens de Pom Klementieff e Ludi Lin.

Nesse ponto, em termos de enredo, o desenrolar da história, apesar de interessante, é um tanto previsível. O timing do episódio poderia ser menos lento e as questões propostas – envolvem de maneira geral reflexões sobre papéis de gênero na sociedade, funções no casamento, rotina familiar e tabus sexuais – poderiam ser mais desenvolvidas através de diálogos que não fossem tão superficiais. Apesar disso, a atuação do trio principal favorece o desenvolvimento do drama vivido pelos personagens.

Por fim, deixo aqui minha indicação de mais um bom episódio de Black Mirror, certamente não tão sensacional quanto San Junipero ou Black Museum, mas que chama atenção pela criatividade da temática central e por explorar o hedonismo que o mundo virtual é capaz de proporcionar e a evolução do entretenimento que a tecnologia será um dia capaz de proporcionar. Além disso, o episódio consegue valorizar, dentre outras coisas, a representatividade racial, dando protagonismo à beleza do corpo não caucasiano. Sobre o final, o que se pode dizer é que vemos uma quebra da lógica Black Mirror, o que, para alguns – não para mim – pode ser um ponto a mais para o episódio.

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