E aqui vamos nós novamente falar sobre zumbis. Apenas da NETFLIX, recentemente, tivemos algumas obras lançadas que dão um bom apanhado do quanto essa temática está batida. Tivemos o pífio “Como Sobreviver a um Ataque Zumbi“, o bom “Cargo“, duas temporadas da mediana “Santa Clarita Diet” (2a e 3a), além da excelente série sul-coreana “Kingdom“. Esse leque de variedade reflete onde chegamos, com obras com mais do mesmo e que nada acrescentam ao lore zumbi, com obras se destacando em sua proposta, outras que se fazem somente em cima dos clichês estabelecidos para a temática e – aí sim interessantes – algumas explorando narrativas, ambientações e épocas pouco usadas quando falamos de nossos amigos mortos-vivos. Chegando para engrossar as fileiras putrefatas dos zumbis, Black Summer estreou na NETFLIX e resgatou algumas boas ideias do início do milênio.

Caso você seja um adolescente experimentando – como diria nosso editor-chefe – com os rudimentos da punheta, certamente não lembrará que em 2002 estreou nos cinemas o maravilhoso longa “Extermínio” (com uma ideia inicial descaradamente copiada por “The Walking Dead”). Dentre inúmeras qualidades, ele se destaca ao apresentar zumbis tapados na cocaína, pulando, correndo, gritando, agredindo sem se importar com absolutamente nada, e que são transformados quase que instantaneamente após o óbito. Isso causava um estado permanente de tensão que permeou todo o filme. Em suma, “Extermínio” é uma obra visceral.

De 2002 pra cá, recordo apenas de “Guerra Mundial Z” (2013) e “Invasão Zumbi” (2016) usando desse artifício para colocar um ritmo frenético e de urgência em sua narrativa. Mas eis que sento a bunda no sofá nesse final de semana e sou agraciado com Black Summer, que bebe dessa fonte de violência e velocidade. Com uma história simples e se passando num período curtíssimo de algumas horas, seguimos diversos sobreviventes em uma cidade de baixa densidade buscando refúgio num estádio de futebol no qual o governo americano está dando assistência e evacuando os civis. Com um janela pequena de tempo, vemos o desespero de nossos personagens em conseguir chegar ao local e não serem deixados para serem comidos vivos.

Em uma sociedade que ainda não sabe o que está acontecendo, com o exército sem muita orientação e o governo isolando cidades contaminadas, dois grupos distintos, compostos por etnias, idades e status sociais diferentes, acabam trabalhando juntos para sobreviver. Claro que, em situações assim, vemos o pior e o melhor do ser humano tomando forma com atos de pura abnegação e filha-da-putagem sem limites. Porém, o grande foco aqui não é a dinâmica entre os sobreviventes, com a exceção de Ryan (Mustafa Alabssi), um surdo-mudo, e Sun (Christine Lee), uma sul-corana que não fala nada de inglês. O foco está na tensão construída meticulosamente entre o ambiente industrial e de casas do subúrbio (pobre) e os zumbis pistolas.

Caralho, que momentos de tensão incríveis foram criados. Não vou spoilar a cena, mas durante a passagem de um grupo por um colégio, eu fiquei com uma prisão de ventre vitalícia de tanto que contraí o brioco. Isso sem contar as diversas perseguições a todo vapor por garagens, casas, ruas e túneis. Inclusive, um episódio inteiro sem fala alguma mostra somente uma perseguição entre um zumbi e um sobrevivente. A imersão criada pela fotografia, enquadramento, ambientação e, especialmente, edição de som, proporcionaram genuínos momentos de puro terror, embalados em muita violência gráfica e que carregam os 8 episódios nas costas.

Contudo, esbarramos aqui em alguns probleminhas. O principal é a ignorância do lore zumbi. Qualquer pessoa hoje na face da Terra sabe que zumbi só morre com dano cerebral, mas temos aqui chuva de balas, facadas e porradas em todas as partes do corpo, com a cabeça sendo acertada no meio disso por acidente. Mesmo sendo notório que após um trauma na cabeça o morto-vivo cessa suas atividades motoras, nossos pseudo-heróis continuam a desperdiçar munição e calorias em esforços para conter seus agressores. Além disso, apesar de não ter incomodado muito, os episódios apresentavam cortes de tempo e posicionavam os sobreviventes em locais e situações que me deixaram indagando como eles se puseram ali, mostrando que o roteiro falha ao utilizar esses atalhos.

Falando em roteiro, muitas informações são dadas sobre a crise nos EUA, sobre o comportamento dos zumbis e as causas do surto, mas em nenhum momento são validadas. Ou já temos uma 2a temporada no forno (e eu espero que sim), ou estamos sendo tratados exatamente como os sobreviventes, angustiados com informações pela metade e tendo que tomar decisões. Se obras que te deixam no escuro são um problema para você, então Black Summer será um tanto penoso em diversos momentos. E, por fim, ainda que os personagens não sejam desenvolvidos, temos o descarte de alguns deles como se fossem figurantes. Tive que voltar algumas cenas para achar determinado personagem que simplesmente sumiu, encontrando-o morrendo escondido no cantinho da tela ou com sua morte sendo algo subentendido.

Com obras vindouras como a aguardada “The Dead Don’t Die“, felizmente o gênero zumbi tem conseguido se manter acordado em seu leito. Mas até lá, algumas séries como “Kingdom” e Black Summer dão um novo vigor a uma fórmula batida e constroem um prognóstico animador para nossos mortos-vivos. Caso você esteja, assim como eu, buscando uma obra simples e pura de sobrevivência e que mexa com seus sentidos, caia de cabeça em Black Summer. Aguardo ansiosamente por uma 2a temporada.

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