Aqui no MetaFictions temos Ryan Fields, nosso especialista em animes e otaku com orgulho. Em função disso, ele acabou sendo escalado para resenhar as três adaptações de mangás/animes em live-action anteriores distribuídas mundialmente com exclusividade pela Netflix, os pavorosos “Mob Psycho 100“, “Death Note” e “Fullmetal Alchemist“. Todos deixaram marcas tão profundas em nosso amiguinho que eu, magnânimo que sou, resolvi tomar para mim a tarefa de resenhar esta mais nova tentativa da plataforma em Bleach. Só depois que fui me ligar que bleach, para mim, é a palavra inglesa usada para água sanitária e enquanto verbo para aqueles que querem clarear o cu e demais partes recônditas da anatomia humana. Eu nunca li o mangá e tampouco vi o anime e, considerando as bombas anteriores, talvez isto seja até um bônus, já que, invariavelmente, adaptações live-action de qualquer coisa decepcionam seus fãs, em especial as de anime.

Quero deixar claro ainda que eu sou violentamente contra adaptações em live-action para o cinema de qualquer tipo de narrativa audiovisual, seja ela uma animação, um videogame ou qualquer coisa assim. Aquela peça artística foi elaborada com determinada mídia em mente e a história que se queria contar já foi contada, então eu sinceramente não vejo qualquer mérito que não o comercial neste tipo de adaptação. É a pura necessidade de se apelar para os fãs já estabelecidos de qualquer obra para se auferir renda que motiva este tipo de versão e isso em geral fica claro, desde o “Street Fighter” do Van Damme até o próprio “Death Note” que mencionei acima, possivelmente o anime mais inacreditavelmente bem escrito de todos os tempos e que foi reduzido a uma desgraça em forma de película (com continuação já encomendada).

Enfim, sem saber de absolutamente nada sobre Bleach (nada mesmo!) eu comecei a assistir e imediatamente tive a certeza de que a intenção aqui é direcionar o filme a um público adolescente e fazer um filme cheio de referências que provavelmente encherão os olhos daqueles que já conhecem toda a mitologia. No filme (e eu não faço ideia de até que ponto isso é fiel ao original), acompanhamos um adolescente (é sempre um adolescente) que tem a pressão espiritual muito forte, o que o permite ver espíritos e Ceifeiros, uma espécie de casta guerreira que protege a humanidade dos Hollows, algo como espíritos que vagam por aí chupando almas.

Se esta descrição te pareceu corrida é porque ela reflete o que é a primeira metade do filme. Tenho certeza que o anime durou pelo menos 5 das suas 16 temporadas para estabelecer todo o extenso lore e para desenvolver os seus personagens apresentados aqui, enquanto que o filme o faz de forma EXTREMAMENTE apressada. Em muito pouco tempo temos a apresentação de personagens que mal são desenvolvidos, à exceção do protagonista, e todo um folclore sobre os Ceifeiros, a Sociedade da Alma (que em japonês é referida como Soul Society, em inglês mesmo, o que é broxante para cacete), os Quincy e todo o resto que passa como uma flecha diante dos olhos do espectador. Isto resulta numa obra sem foco e que, apesar de demonstrar haver efetivamente muita coisa realmente interessante a ser falada sobre aquilo tudo, não desenvolve quase nada em um nível que torna muito difícil a criação de qualquer empatia com seus personagens, em especial quando, como eu, nada se sabe a respeito deles.

Para além disso, a transposição dos elementos de uma história em quadrinhos ou uma animação para uma película com atores de carne e osso pressupõe uma adaptação, o trazimento daquilo que é loucamente fantástico e fisicamente impossível para um contexto um pouco mais real. Aqui mais uma vez Bleach fracassa ao basicamente copiar os exageros que são perfeitamente admissíveis em videogames ou animações, mas que ficam totalmente despropositados em uma obra com escopo real, ainda mais quando ela não se presta a tirar sarro deste tipo de coisa.

Mesmo diante disso tudo, a principal prova de que a ideia aqui era pegar absolutamente todo o fan service possível e espremer tudo que dava para dentro do filme está em seu terço final. Em um longa-metragem que não se pode dizer curto (1h48m), temos mais de uma hora de uma corrida alucinante para estabelecer mitologia e um superficialíssimo desenvolvimento de personagem para sermos massacrados por nada menos que 4 lutas finais que provavelmente demoraram umas 10 temporadas até acontecerem.

Nem tudo, contudo, é um erro. Os atores escalados exalam carisma, em especial Ichigo, interpretado com gosto por Sôta Fukushi, e também a blasé participação do cantor Myiavi como Byakuya Kuchiki. A trilha sonora, apesar de ter me irritado enquanto um homem de 35 anos, acerta em cheio o no tom meio animesco de todas lutas. E as lutas certamente agradarão aos fãs mais ardorosos que sempre quiseram ir pro Japão só para ver o musical baseado em Bleach, ainda que a edição nelas tenha deixado a desejar.

Enquanto alguém que também gosta de animes e mangás, tendo “Akira” em seu top 10 de filmes de todos os tempos e “Berserk” no de séries, mas que nunca havia tido contato com o que diz respeito a este produto monstruosamente grande da cultura oriental, posso dizer que Bleach não foi a desgraça anunciada que eu esperava, mas já não posso responder por aqueles otakus que, assim como meu amigo Ryan, estão ainda inconsoláveis com as mais recentes adaptações.

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