Um vírus mortal espalha o pânico entre os moradores de uma cidadezinha no interior do Brasil chamada Progresso. Transmitido pelo beijo, ele ataca os jovens e faz com eles percam a sensibilidade a tudo ao seu redor até que, quase zumbis, morram. Não, isto não é o resumo da minha vida amorosa em tempos de COVID, mas, sim, a premissa da mais nova produção nacional da Netflix, a série Boca a Boca, criada por Esmir Filho.

E, leitor Metafictions, dessa vez a gigante do streaming acerta bonito. A produção é um achado excelente no catálogo. Esmir Filho possui um olhar sensibilíssimo e atento ao discutir os meandros da juventude. Do excelente “Os Famosos e os Duendes da Morte passando pelo “Boyhood” brasileiro “Alguma Coisa Assim” (cujo processo de filmagem levou dez anos e cuja resenha você pode ler aqui), ele já tinha provado no cinema ser um dos olhares mais únicos no tratamento da vida nessa fase. Atacando no campo novo das séries, ele não decepciona.

O primeiro acerto está na construção refinada das metáforas que alicerçam a narrativa. O resumo do plot está longe de dar conta das muitas camadas de significação que o roteiro hiper bem feito apresenta. A cidade de Progresso é um microcosmos paralelo a nossa sociedade que, no intuito de proteger nossos filhos, construiu uma bolha de aparências e algemas invisíveis que tirou deles a experiência de sentir o mundo em seu âmago mais pulsante e, por vezes, doloroso. A Escola Modelo, nome que, tal o nome da cidade, é carregado de ironia, com seus estilosíssimos uniformes cor-de-rosa e uma direção que se vale de técnicas “modernosas” de pedagogia, é o ponto nevrálgico daquela perfeição irritante que toda distopia deixa à mostra.

Outro tiro certeiro do roteiro, e que o diferencia de outras produções nacionais chanceladas pela Netflix, é o aprofundamento das personagens. Em apenas seis episódios, Boca a Boca constrói personagens completos, com motivações delineadas, sejam os protagonistas, sejam os secundários. Gera-se, assim, uma ligação do espectador com cada um deles e a história ganha corpo porque se humaniza. Não há espaço para encheção de linguiça nas cenas, tudo aparece porque importa e tudo importa porque aparece, inclusive as tramas paralelas.

E isso nos leva a falar do elenco, que funciona horrores. Mesclando jovens atores com veteranos da nossa dramaturgia (como Denise Fraga, Bianca Byington e Bruno Garcia), o casting é excelente e amplia qualitativamente as potencialidades do texto.

O trio de protagonistas segura a responsabilidade com galhardia: Alex (Caio Horowicz), jovem sensível tendo que lidar com o autoritarismo e os desvios éticos do pai, Donizete Nero (Bruno Garcia), todo-poderoso pecuarista da cidade; Fran (Iza Moreira), que em meio à uma tragédia pessoal da família tem de presenciar o sofrimento da mãe Dalva (Grace Passô, e se você não conhece Grace Passô você está perdendo uma das mais competentes e interessantes atrizes brasileiras do momento), empregada da fazenda dos Nero; e Chico (Michel Joelsas, em destacada e sensível performance), jovem que, tentando uma vida nova após percalços na cidade grande, chega a Progresso para viver com o pai ultrarreligioso e desperta a homofobia do local ao envolver-se com o vaqueiro Maurílio (Thomas Aquino). Separados, cada um deles dá conta da sua responsabilidade e juntos o jogo se completa

Nas outras áreas de construção, Boca a Boca também se esmera em fazer bonito. Direção, figurinos, efeitos visuais, trilha sonora, edição, direção de arte, tudo funciona azeitadinho. Mas, é preciso falar da fotografia. Sério, a fotografia é uma das coisas mais bonitas já produzidas na área.

Assinada por Azul Serra e visualmente remetendo ao tipo de trabalho desenvolvido na excelente série “Euphoria, da HBO – com quem Boca a Boca conversa também na abordagem soco no estômago da juventude -, a fotografia explora os tons de rosa, azul e lilás de uma forma sem precedentes. O contraste que ela causa entre realidade e fantasia, delírio e conflito, escapismo e opressão transforma a carga visual da série em material poético. É lindo e muito bem executado.

No fim, Boca a Boca entrega uma temporada redondinha, sem pontas soltas e sem decepção. E, na cena final, ainda entrega um gancho tentador para uma potencial segunda temporada. Se a qualidade da primeira leva de episódios for quesito para a sua continuação, então, não há como não acontecer. De quebra, o Corona podia ir se divertir assistindo a esse ponto alto da nossa dramaturgia e liberar a gente no mundo real para voltar a dar uns beijos, né?

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