“ Um mundo que se pode explicar, mesmo com raciocínios errôneos, é um mundo familiar. Mas num universo repentinamente privado de ilusões e de luzes, pelo contrário, o homem se sente um estrangeiro. É um exílio sem solução, porque está privado das lembranças de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida. Esse divórcio entre o homem e sua vida, o ator e seu cenário, é propriamente o sentimento do absurdo. E como todos os homens sadios já pensaram no seu próprio suicídio, pode-se reconhecer, sem maiores explicações, que há um laço direto entre tal sentimento e a aspiração ao nada.”
-Albert Camus, O Mmito de Sísifo – 1942

A quinta temporada de Bojack Horseman pode ser resumida no título de seu sexto e melhor episódio “Churros Grátis”. Absurdo, irresistível e responsável por um vazio enorme quando os créditos rolam pela última vez, a temporada é a confirmação irrefutável que produção da Netflix é de longe a melhor série de nosso tempo. Despido de personagens insossos que assombraram a última temporada (leia-se Hollyhock, que felizmente só aparece em um episódio), a narrativa volta a focar no confronto fundamental da obra: o que somos contra o que queremos ser. Nesse sentido, Bojack volta a ser o epicentro irrefutável da série junto a Diane, repetindo a dinâmica da primeira temporada. Juntos os dois são obrigados a rever as hipocrisias fantasmas e as sombras de um passado que se retorce, se condensa e faz tremer.

Tudo que faz Bojack Horseman único está lá. A acidez do humor, a profundidade dramática, os personagens cada vez mais densos, episódios com linhas narrativas excêntricas. Tudo está lá. Todavia, a quinta temporada é capaz de adicionar ainda mais peso com seu protagonista preso num alter ego televisivo que ele mesmo interpreta. Nessa metalinguagem escaldante, a obra não foge do confronto com seu tempo e com a indústria do entretenimento. Serviços de streaming, diretores ególatras, assédio sexual, tudo isso se funde e se confunde para compor um espelho difuso de humor negro do moderno. De todos os impactos positivos do movimento #MeToo, nenhum é tão avassalador quanto seu serviço enquanto matéria-prima para a cabeça de Raphael Bob-Waksberg, brilhante escritor e criador da série.

Os personagens nunca foram tão fundamentais, Princess Carolyn (Amy Sedaris) e Mr. Peanubutter (Paul F. Tompkins) resplandecem quando obrigados a confrontar seus anseios secretos, suas solidões espessas e traumas enterrados na sala de estar. Todavia, Bojack (Will Arnet) e Diane (Alison Brie) são quem realmente catalisam a temporada, um servindo de anteparo para a hipocrisia do outro. É na dialética geracional entre a vietnamita feminista e o cavalo envolto na seda da masculinidade tóxica que a trama se desenrola de maneira magistral. Todd (Aaron Paul), no entanto, parece cada vez mais relegado ao posto de alívio cômico perdido na espiral de vícios e abismos da série.

Apesar de tudo já dito, nada é tão forte na quinta temporada de Bojack quanto o desespero. Nas temporadas passadas havia uma esperança tímida de reconciliação com o universal, de transformação, de autenticidade. A série dilapida completamente qualquer pretensão heideggeriana ou sartriana ao abraçar um existencialismo camusiano de maneira voraz. Não há caminho para Bojack e seus camaradas de Hollywood. Amamentados de tudo que o mundo burguês pode ofertar, eles vomitam a própria alma, andam despedaçados e desfigurados numa via sacra em busca de um eu ideal que nunca está lá. Nem mesmo a morte serve de resolução, o que sobra é uma condenação, um berro silencioso quanto à indiferença do mundo.

Bojack Horseman fecha um ciclo, retornando às suas origens, voltando os olhos a sua implacável dualidade composta por Diane e Bojack. Desde a primeira temporada, a névoa de angústia que prometia levar os dois à redenção não se dissolve, e o que sobra é o sentimento agridoce de que é preciso tentar novamente, não por esperança, mas por simples protesto. O cavalo falante interpretado por Will Arnet é cada vez mais o Sísifo do presente, condenado a retornar temporada atrás de temporada à base da montanha e rolar a bola de pedra, sabendo que jamais realizará sua tarefa. Bojack busca se tornar alguém melhor, mas tudo que consegue é se afogar mais em si mesmo. Nesse sentido, a série nunca foi tão pertinente ao extinguir a hiper positividade da modernidade e nos brindar com o  absurdismo da crua sentença: apesar do que dizem livros de autoajuda, propagandas de academia e campanhas de financiamento, não há esperança que o amanhã seja melhor que hoje e tudo pelo que podemos esperar é um simples e inexplicável churros grátis ou a brilhante nova temporada de Bojack Horseman.

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