Talvez pelo fato de eu ter passado os últimos anos da minha vida entrando e saindo de delegacias entranhadas no ócio, sentindo na prática a lógica falaciosa do Direito Criminal, eu acabei nutrindo uma preguiça absurda pelo tal gênero “suspense policial” que o brasileiro tanto venera no audiovisual.

Para a minha sorte, a nova série da Netflix Brasil, Bom dia, Verônica, baseada na obra da criminóloga Ilana Casoy e do romancista Raphael Montes, vai muito além de indícios de materialidade, organogramas e luminol, alçando as personagens femininas, imersas numa lógica de opressão, a um protagonismo inédito no gênero.

A premissa do roteiro parte da atuação de sua protagonista Verônica (Tainá Müller) como escrivã da Polícia Civil de São Paulo que, ao presenciar um suicídio na angustiante cena de abertura, se vê obstinada a fazer justiça dando voz a mulheres vítimas de abusos físicos e psicológicos dentro de seus relacionamentos abusivos.

Essa primeira temporada se divide em oito episódios de quarenta e poucos minutos focados em percorrer os inúmeros métodos de violência contra a mulher. Como os abusos vão acontecendo de maneira assíncrona e em diferentes potencialidades, a direção consegue enfiar a caixa do pôster na nossa cabeça e só nos dá um buraquinho para que tentemos sobreviver com um pouco menos culpa.

A vida pretérita, o lamaçal que reveste as nossas instituições e os traumas familiares de Verônica constroem uma personalidade potente e dão o tom natural de justiceira que a protagonista precisa. As diferentes fases da jornada de uma personagem que sucumbe às suas próprias obsessões e impotências, ganham vida nos olhos de Tainá Müller a cada passada de lápis, a cada guerra.

Quando o principal arco paralelo vem à tona e o roteiro invade a masmorra de Janete (Camila Morgado) e Brandão (Eduardo Moscovis), a série muda de patamar. Du Moscovis encarna um Coronel da Polícia Militar aterrorizantemente desprezível sem precisar elevar o tom da sua voz. Camila Morgado, que é uma das minha atrizes brasileiras favoritas desde “Olga”, tem mais um desempenho sensacional. Eu sentia um soco a cada sorriso forçado esboçado.

Eu, como homem, no curso de um constante processo de desintoxicação das minhas amarras machistas, fiquei completamente incomodado nos momentos de carta branca que precediam os surtos de Brandão. A série é espetacular ao escancarar esses diferentes loops dentro de um relacionamento no qual a submissão ultrapassa a própria existência. Janete simplesmente deixou de existir graças ao marido. A volatilidade do sentimento de culpa só destroçava mais ainda.

Ainda que Verônica e Janete sejam inseridas como fios separados no roteiro, o laço acaba sendo natural e convincente, o que só facilita a vida dos adeptos a maratona de episódios. A tensão visual é presente do início ao fim, mesmo com uma evolução acelerada e uma série de eventos chocantes, o que faz por agregar valor a obra.

Embora a produção tenha se esforçado horrores para não caricaturizar uma temática tão sensível no 5º país da lista mundial de feminicídios, alguns elementos do Terror podem ser digeridos mais lentamente por quem tem repulsa pelo gênero. Contudo, é inegável que o choque, o desespero e a ansiedade encaixaram muito bem nas metáforas transportadas.

Não estou exatamente convencido sobre a relevância das relações espirituais de Brandão com a proposta de reflexão trazida pela série. Pintar o macho agressor de maluco, psicopata, serial killer e fã de magia negra pode distanciar um espectador mais desatento do caráter expositivo da série. Há que se entender como uma obra de advertência e não como ficção. Parece óbvio, mas é sempre bom frisar.

De qualquer forma, Bom dia, Verônica é uma série que satisfaz, tanto como suspense policial, terror psicológico ou pedido de socorro. A trilha sonora é excelente, a frequência cardíaca é alta, o trio principal é do caralho e as reflexões são dignas de horas e horas de psicanálise. Se algum gatilho tiver te pegado desprevenida, não hesite em procurar ajuda.

Assistam, passarinhos. E saiam da caixa.

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