Se você ainda não esbarrou com a primeira obra norueguesa original Netflix, eu vou fazer o favor de não te segurar até o final desta crítica para dizer o que realmente interessa: Cadáver, do diretor novinho Jarand Herdal, tinha tudo para ser um filmaço do caralho!

Tinha.

Após um terrível desastre nuclear com proporções catastróficas, a miséria e o desespero nos levam para uma espécie de jornada pós-apocalíptica onde Leonora (Gitte Witt) e Jacob (Thomas Gullestad) precisarão fazer das tripas coração se quiserem sobreviver ao lado de sua filha Alice (Tuva Olivia Remman), em um canto qualquer do norte europeu.

É impossível não se sentir seduzido pela trama em suas nuances iniciais. Nas paredes do apartamento frio e escuro onde a família se abrigava, havia um pôster de uma apresentação da inominável “Macbeth”, a tragédia amaldiçoada de Shakespeare, num teatro norueguês na qual a ex-atriz Leonora havia desempenhado o papel de protagonista.

Quando uma gota de chuva escorreu como uma lágrima pelo rosto de Lady Macbeth, Leonora precisou tirar forças de onde não tinha para tentar servir de porto seguro para a pequena Alice, que embora ainda não tivesse caído na toca e tampouco conhecesse um país das maravilhas, já carregava o seu coelho (de pelúcia) em meio ao caos.

Diante da absoluta falta de perspectiva da população que restara, Mathias (Thorbjørn Harr), dono de um luxuoso hotel local, surge da atmosfera turva para convidar as pessoas para uma única apresentação de teatro com direito a banquete, numa espécie de refúgio pão e circo, onde qualquer espectador acordado já presumiria se tratar de uma armadilha, afinal, por que tem um Windsor funcionando no fim do mundo?

Ok, superando o espírito racional, a contradição visual entre a cidade arrasada e o hotel reluzente, adiciona de maneira eficiente o ar de mistério e um estilo de fotografia excelente ao filme, que tende a nos passar credibilidade e gera a expectativa necessária.

No momento em que o hotel é alçado a um patamar de protagonismo e caminhamos pelos seus gigantescos tapetes vermelhos, em corredores pouco iluminados e repletos de pinturas macabras, as câmeras, quase sempre posicionadas na parte de cima do quadro, mantém o constante estado de alerta e a sensação de ansiedade.

Essa atmosfera ainda é potencializada quando os convidados são informados de que vão participar da apresentação e que ela se desenvolverá por todo o edifício, mas que, para isso, precisarão trajar máscaras douradas ao longo do espetáculo de ação, sendo esta a única ferramenta capaz de diferenciar atores de espectadores.

Quando tudo parecia perfeitamente encaixado e eu já estava conformado que seria transportado para um estágio profundo de confusão mental entre realidade e ficção, o efeito do Viagra acabou. Dá-se início a uma sucessão de escolhas imbecis, seguidas de ramificações toscas, até que as resoluções da história são servidas que nem papinha, como se eu fosse um bebê desprovido de capacidade intelectual.

A partir daí o ki-suco azedou de vez. O tempo de espera pela resolução de cada evento óbvio parece uma eternidade, mesmo se tratando de uma obra de oitenta minutos. Não há mais nenhum personagem interessante, nenhum plot twist, nenhum mistério relevante a ser desvendado. Tudo é exatamente do jeito que você acha que vai ser.

O cara que não pode tirar a máscara vai tirar e vai se fuder (não tinha cloroquina), o quadro que pisca o olho vai ter uma passagem secreta, os capangas vão ficar brincando de gato e rato, o gore vai passar do tolerável em alguma morte ridícula e a filha desaparecida vai aparecer sem maiores explicações.

O potencial do argumento é arremessado na lata do lixo e aí fica difícil querer gerar reflexões sobre fragilidade da espécie, estado de necessidade, ética e moral. O horror que deveria emergir da cruel desconexão entre tragédia e compaixão, empaca na falta de capacidade do roteiro. Até mesmo a premissa canibal que deveria servir de alça para essas discussões, morre presa num gancho de açougue, sem aprofundar sobre porra nenhuma.

Frustrante.

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