Goethe uma vez disse que a arquitetura é música petrificada. Bernadette Fox (Cate Blanchett) parece ter perdido todo o ritmo e harmonia de sua arte. Antes uma arquiteta renomada e premiada, depois de um acontecimento traumático, ela hoje é uma misantropa que vive apenas para se dedicar à filha Bee (Emma Nelson). Quando sua vida escapa totalmente dos trilhos, ela resolve sumir do mapa e se lançar a uma jornada de redescobrimento e reencontro consigo mesma que a levará (literalmente) aos confins da Terra.

Cadê Você, Bernadette? é o filme mais recente do grande Richard Linklater, responsável por uma das maiores obras-primas do cinema contemporâneo, “Boyhood”. Diretor com uma assinatura muito marcante, sua obra é famosa pelo preciosismo, pela delicadeza nos detalhes, pela percepção da grandeza nas coisas mais miúdas. Aqui ele prova que, mais uma vez, não perdeu a mão e nem o olhar.

Começando pelo roteiro, que adapta com muita competência o romance de Maria Semple, a produção acerta pelo cuidado com que cada minúcia é tratada. Várias situações, por exemplo, seriam fáceis de cair no abismo do meloso, mas, impecável, o texto sempre consegue transformar o que se vê em algo reflexivo. Assim, o espectador se depara com cenas que são meditações sobre criar, abrir mão, amar e família. Só que, escolhendo corretamente uma via bem-humorada e altamente estilizada, não se tem a sensação de que estamos tendo nossas emoções manipuladas de forma barata.

Tecnicamente, o longa é uma festa para os olhos. Linklater cria planos que parecem irreais de tão bonitos. Autorreferentes, as imagens se estabelecem arquitetonicamente, lembrando o tempo todo que, quando se fala de arte, forma e conteúdo são indissociáveis. Ampliadas por uma fotografia deslumbrante, então, as imagens são potentes, tiram o ar. De cara, leitor MetaFictions, já aviso que o plano que abre o longa é simplesmente inesquecível. E que uso magnifico se faz das cores.

Todos os outros aspectos também funcionam muito bem. A edição muito boa imprime um ritmo gostoso, a trilha sonora dialoga bem com o que se vê, os cenários (arquitetura, né?) são mágicos. Além disso, já disse que a direção opta por usar a estilização como caminho de expressão. Essa estilização fica maravilhosamente marcada nos figurinos. Que figurinos! Certos subtextos ficam totalmente explicados só de olhar as roupas em cena.

O esmero técnico, porém, não tira da história o seu componente mais emocional que é justamente a sua humanidade. O roteiro vai encontrar nas performances de um elenco azeitadinho a sua expressão mais afetuosa. Seja em participações menores, como a de Kristen Wiig no papel da vizinha perfeccionista e metida á besta ou a de Laurence Fishburne como o mentor de Bernadette em seus anos de arquitetura, todo o elenco se dá com muita entrega. Estreante, Emma Nelson brilha com a química entre ela e dona Blanchett, gerando alguns dos momentos mais bonitos da dinâmica mãe/filha já vistos nas telonas. A cena em que elas cantam Time After Time no carro é lindinha a ponto de dar um suorzinho nos olhos.

E Cate Blanchett mais uma vez gesta um daqueles desempenhos que obrigam a esse crítico usar a expressão que ele gosta tanto: tour de force. Em um momento, Paul Jellinek (Fishburne) diz a ela que pessoas criativas, quando não criam, se transformam em uma ameaça à sociedade. E é essa vulnerabilidade que exala de cada minuto da atuação da protagonista. O que vemos é uma atriz que se joga num personagem. É impossível não criar uma ligação com a Bernadette de Blanchett, essa misantropa, sim, mas que se emociona com as pequenas belezas e, sim, estou ouvindo Time After Time e meu olho está coçando.

Cadê Você, Bernadette? é bonito. Ele toca num pedaço de nós que, ao mesmo tempo em que quer sumir do mundo, quer se unir a ele. É um filme sobre afetos. Talvez seja essa a sua maior arquitetura: a arquitetura dos afetos. É uma porta, pois, como definiu o grande João Cabral de Melo Neto, o arquiteto é aquele que abre portas para o homem. Mas não qualquer porta. São “portas por-onde, jamais portas-contra; por onde, livres: ar luz razão certa”.

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