O futebol é lindo, dentre outras coisas, porque eles nos permite entender vários aspectos da geopolítica mundial. Assim como no Brasil, nos demais países, até nos mais ricos, este esporte é praticado em massa pelos estratos menos favorecidos da população, que veem nele a chance de uma meteórica ascensão social e econômica. E, hoje, quem compõem a massa pobre dos chamados países ricos – ainda que a massa pobre de lá provavelmente tenha mais dinheiro e qualidade de vida que você – são justamente os imigrantes, daí termos visto na Copa do Mundo uma seleção alemã com nomes e aspectos que passam longe do estereótipo germânico do sujeito loiro-do-olho-azul-chamado-Fritz-ou-Hans. Ao invés disso, temos uma geração 7 x 1 com gente que se encaixa perfeitamente nesse modelo, como os impressionantes Toni Kross e Thomas Müller, mas também temos jogadores como o jovem filho de senegalês Leroy Sané, mais relevantemente para este texto, o descendente de turcos e um dos símbolos desta geração Mesut Özil.

Caso a Copa do Mundo ainda esteja suficientemente fresca na sua memória, você há de lembrar de uma polêmica envolvendo Özil que, mesmo sendo alemão nascido e criado de 3ª geração, jamais se livrou ou, imagino, quis se livrar de suas raízes turcas, razão pela qual ele foi criticado em um nível que parece até mesmo ter prejudicado sua performance na copa por causa de fotos que tirou com o presidente turco Erdogan. Isto imediatamente causou a ira de alguns grupos de direita e extrema direita na Alemanha, um país cuja continuada existência pra mim é um assombro depois de ter deflagrado duas Guerras Mundiais num espaço de 30 anos justamente por causa de movimentos extremistas, movimentos estes que, não por acaso, vêm mais uma vez ganhando força na nação que conta com a maior população turca fora da Turquia no mundo. E isso sem contar com os demais imigrantes e refugiados de dezenas de outras nacionalidades que lá moram.

Este palco de tensão racial e xenofóbica em um país que, como os demais, já não consegue viver sem seus imigrantes, mas que ao mesmo tempo vê parte da sua população insuflando sentimentos de ódio contra estes, é o ponto de partida de Christian Alvart, criador, roteirista, produtor e diretor de todos os dez episódios de Cães de Berlim. A partir do assassinato do melhor jogador da seleção alemã, não por acaso de ascendência turca, antes de um jogo importante de alguma eliminatória contra a Turquia em Berlim, somos arremessados para dentro de um thriller policial para descobrir o assassino na qual isto é aparentemente o que menos importa para todos os envolvidos.

Sob pena de dar spoilers, vou deixá-los somente com uma sinopse bem resumida para que vocês entendam logo de cara a quantidade estapafúrdia, mas que consegue miraculosamente funcionar, de coisas acontecendo ao mesmo tempo. De um lado temos o detetive de homicídios Kurt Grimmer (Felix Kramer, com gosto), alemão oriental com um passado um tanto vexaminoso para quem está na polícia e que faz de tudo, por razões escusas, para que a investigação do assassinato seja sua. De outro temos Erol Birkan (Fahri Yardim), detetive da divisão anti-drogas a quem a investigação é forçada por ser turco e que também tem coisas que preferiria esconder, em especial de sua comunidade. Dentro de uma lógica totalmente enviesada das obras de buddy cop, os dois vão se ver às voltas com a máfia turca, a máfia eslava, um jornalista escroto vietnamita, um jogador da seleção com ascendência gabonesa, um grupo neo-nazista, dívidas de jogo, homossexualidade, tráfico de drogas, traições, jogo ilegal, corrupção em todos os níveis e, puta que o pariu, várias outras coisas que que eu provavelmente estou esquecendo.

O ponto é que Alvart conseguiu fabricar um roteiro magistral no que se refere a apresentar elementos em quantidades astronômicas e fazer com que eles todos se encaixem e dialoguem entre si, tudo para nos dar 10, ainda que um tanto irregulares, episódios de tensão quase que o tempo todo, com uma forte identidade autoral em todos eles, entretendo com seu ritmo frenético, que muito lembra o Guy Ritchie dos bons tempos, ao mesmo tempo que provoca reflexão não só sobre as questões sociais já apontadas acima, mas também sobre o poder que o acaso tem em todas as nossas vidas. Para ficar num evento atual, basta pensar que se o ônibus do Boca Juniors não tivesse tido sua janela quebrada, hoje já saberíamos há semanas quem é o campeão da Libertadores e não estaríamos assistindo a um jogo de um torneio chamado LIBERTADORES DA AMÉRICA justamente nas terras do país do qual a maior parte da América foi libertada.

Todos estes inúmeros ingredientes são jogados dentro de um caldeirão já em ebulição que é a Berlim de hoje em dia e então explodem em uma confronto de proporções gigantescas em suas ruas ao qual sabemos desde o primeiro frame da série que a série se encaminhará, uma vez que a maneira que Alvart encontrou para contar esta história é a do flashback, com cada capítulo refletindo um dia nos 7 dias entre a morte do jogador e das violentas manifestações que tomarão conta da cidade. O objetivo então é uma suficientemente séria análise antropológica – ainda que cheia de violência, peitinhos, reviravoltas e demais mecanismos de entretenimento – do que nos leva a nos juntarmos em grupos e, dentro da segurança da manada, cometer atos que sozinhos jamais teríamos coragem de cometer. É a nossa maior força enquanto espécie e nossa maior vergonha enquanto seres sociais.

Trata-se de uma série extremamente contextual, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e com tudo se fechando com o tempo. Ainda assim, é nítido que há nela uma barriga ali pelo meio, como que se tivessem dado uma forçadinha de leve para fazer com que houvesse conteúdo suficiente para os 10 episódios contratados, o que é um equívoco que a outra série original Netflix alemã, a excelente “Dark“, também comete.

De todo modo, a segunda série original alemã da Netflix tem muito mais acertos do que erros, conseguindo ser uma obra que provoca a reflexão sobre aquela que é possivelmente a maior mazela das sociedades hoje em dia, em especial num país cuja chaga do Nazismo jamais será totalmente cicatrizada, ao mesmo tempo que entretém com sua cinematografia, diálogos engraçaralhos, boas atuações e situações esdrúxulas, todas perfeitamente arrumadas pelo engenhoso roteiro.

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