Apesar de ser professor, espécie a qual o senso comum credita a característica de ser movida por esse negro líquido, nunca fui fã de café. Até bebo, mas sem paixão. Minha relação mais próxima com a beberagem se dá pelo vício de repetir várias vezes o famigerado vídeo do senhorzinho do “quero caféééééééé“. Assim, fui um pouco melindrado assistir ao novo filme de Cristiano Bortone, Café.

Segundo os especialistas , a bebida mágica tem três sabores em si: amargo, azedo e perfumado. É dessa premissa que o longa parte. Três histórias passadas em lugares diferentes do mundo, com suas personagens experimentando as três camadas na vida. Durante protestos na Bélgica, Hamed (Hichem Yacoubi) tem seu precioso bule de prata roubado de sua loja. Sozinho, ele parte em busca do ladrão, encarando consequências pesadas. Na Itália, Renzo (Dario Aita), um especialista na bebida, se envolve no roubo de grãos especiais, mas nem tudo ocorre como planejado. Na China, o talentoso Ren Fei (Fangsheng Lu) descobre que a empresa para a qual trabalha pode destruir toda uma região. Envolvendo-se com uma trágica e bela artista plástica/produtora artesanal de café (Zhuo Tan), o jovem businessman vê sua vida mudar.

E é nessa exposição de multiculturalismo que a xícara de Bortone se mostra quentinha. Os melhores momentos do longa se encontram na poesia que o roteiro e o diretor extraem do coador multifacetado de suas personagens. O filme consegue, através das sólidas atuações de seu elenco, mostrar-se local e universal. Exatamente como o papel que o cafezinho tomou ao redor do globo.

O que poderia soar esgarçado pelo aparentemente frágil fio narrativo a unir as histórias ganha um tom de delicado trabalho de patchwork através da edição e da fotografia. Aquela unindo as cenas com naturalidade, esta, conferindo uma unidade visual que se afirma mais forte na não-negação das diferenças entre os espaços.

O cafezinho fica aguado, porém, na prisão em que o roteiro se encerra ao obrigar-se a explorar os três sabores em todas as narrativas. A parte “perfumada”, “doce” , deixa na boca do espectador um ranço de implausibilidade, de anacronia. Isso se nota mais fortemente no episódio passado na Bélgica, cujo desfecho soa bem inverossímil e até mesmo preguiçoso.

Mas o filme se sustenta, no fim,  como uma alternativa interessante para se experimentar um cinema diferente dos blockbusters do período. Se a companhia for boa, então, rola até um cafezinho gostoso depois. E termino a crítica com One More Cup of Coffee do grande Bob Dylan, nessa versão mais bonita que o original (os puristas que me perdoem). Manda um cafezinho aí, Gabriel Mayers!

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