Eu estive andando em círculos / A História revela seus ecos / Você mostra um pouco de bondade?/ Eu posso ver a cegueira apenas” (Steve Harris)

Não raro escrevo sobre filmes cuja tendência é uma liberdade narrativa maior, deixando elementos para que o espectador possa construir parte da história, concentrando-se na subjetividade de suas alegorias e permitindo um nível maior de imersão à obra. Não raro, boa parte dos nossos leitores tendem a detestar esse tipo de produção. Então, antes de iniciar efetivamente minha opinião acerca do novo lançamento de terror da Netflix (baseado em obra de Stephen King), devo alertar aos nossos espectadores que não só prefiro este tipo de liberdade narrativa, como este filme envereda bastante por essa linha. Tendo dito isso, se você é daqueles que optam por contos bem explicados e sem lacunas, Campo do Medo não é para você.

Becky (Laysla De Oliveira) está gravida, viajando para São Francisco com seu cuidadoso irmão Cal (Avery Whitted). Em uma breve parada, no meio do percurso, naquelas paisagens abandonadas dos Estados Unidos, onde só há uma velha igreja vazia e alguns carros empoeirados estacionados à margem, os irmãos escutam pedidos de socorro de uma criança, vindos de um alto matagal ao lado. Preocupados com a situação, Becky e Cal adentram a densa mata para resgatar o garoto perdido. Porém, uma vez lá dentro, eles são incapazes de encontrar a saída. O alto matagal parece ter vida própria e muda seus caminhos, confundindo aqueles que foram engolidos por suas plantas verdes e imponentes. A única coisa que permanece intocada são os corpos de outros que, como eles, jamais encontraram a saída.

Mais um passo em direção ao nada.

Até aí, nada de subjetivo na trama que se desenrola diante de nós. Porém, o conto começa a tomar contornos sobrenaturais, abandonando qualquer apego ao meramente real. Portanto, não é um filme que nos conta a história de pessoas perdidas que tentam sobreviver. É um filme que se utiliza de diversos elementos cênicos como alegorias para permitir um sem-número de interpretações por parte daquele que o assiste. Uma vez lá dentro, os irmãos encontram o menino Tobin (em grande interpretação de Will Buie Jr.) e seu pai Ross (pelo ótimo Patrick Wilson), que dizem estar perdidos há dias, sem comer ou beber. Certamente, eles já não são 100% humanos e mantêm um tom misterioso e quase ameaçador em suas relações para com os novos perdidos. Becky e Cal, agora, lutam pela sobrevivência contra a mata e também contra Ross, que se tornou uma espécie de lunático ao entender o denso matagal como uma entidade a requerer sacrifícios.

O espectador parece ser ainda mais largado pela narrativa quando um ciclo de tempo e um quase eterno retorno é entregado pela trama. Situações já passadas se repetem no futuro, quebrando a lógica tanto do tempo, quanto do espaço (coisa que o matagal faz o tempo inteiro). Aquilo que já não fazia muito sentido começa a ficar ainda mais louco. Nesse momento, porém, o espectador passa a ser um agente do filme: o tom religioso pregado pelo lunático e falso profeta Ross, a igreja abandonada ao lado da mata verdejante, pessoas sem vida que permanecem no mesmo local impedidos de serem tocadas pela vida própria do matagal, o desejo e instinto de sobrevivência atrelados a um caminho que parece nunca chegar, levando-nos de nenhum lugar para lugar algum e a sempre presente vontade de poder são alguns dos principais elementos da vida de qualquer ser humano. As alegorias utilizadas pelo diretor Vincenzo Natali são precisas (em uma das leituras possíveis) para concluirmos uma interpretação que diz muito sobre as questões mais básicas da vida.

Andando em círculos.

Desde o não-nascido a se desenvolver em sua barriga àqueles que já se decompõem na terra escura que aduba a mata, o ciclo da vida está bem marcado. Cada um lutando dentro de si próprio e com os outros para se manterem vivos, para se agarrarem em algo que acreditam, enquanto mantêm a fé de que tudo ficará bem é o exato ritmo da batida de qualquer história individual que se conheça. A igreja que, da mesma forma, parece se decompor associada ao devaneio semi-divino de um dos personagens, constrói com precisão a vontade de potência do ser humano, que insiste em se entender maior do que tudo. E, por sua vez, a natureza arrebatadora que, uma vez raivosa, engole em um piscar de olhos essa sombra errante, que se acha mais do que é, é a certeira ilustração das catástrofes que mostram, episódio atrás de episódio, a pequenez dos homens.

O que poderia ser um simples filme de terror ou uma história de sobreviventes sem muito a acrescentar, torna-se em uma interessante e inteligente produção, permitindo-se falar com profundidade sobre os elementos mais íntimos do curso da vida. Apesar de alguns momentos se repetirem em uma autorreferência, essa repetição apenas marca conceitualmente aquilo com o que lidamos todos os dias: mais uma nova chance de se fazer diferente e, tal qual a mão inflexível do destino, insistimos em repetir os velhos erros.

Quando você pensa que nós já usamos todas as nossas chances e a chance de fazer tudo direito, Continua cometendo os mesmos velhos erros, fazendo o inabalável equilíbrio ser tão fácil, Quando vivemos nossas vidas no limite / Faça uma oração ao livro dos mortos (…)
E se você está passeando pelo Jardim da Vida” (Steve Harris)

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