Carga Bruta é um filme francês de ação que trata sobre roubos. Sua sinopse apresenta a história de um grupo que assalta carros fortes, mas se vê em outro tipo de trabalho para saldar uma dívida devido ao erro de um dos integrantes. É um conto comum, mas o fato de vir da França sugere, certamente, que o foco narrativo será outro e não a ação pela ação. Ao analisar mais proximamente os personagens principais da obra, temos a certeza de que o diretor Julien Leclercq tem material de sobra para fazer uma abordagem da sociedade francesa em seu contexto mais atual. Mas será que ele, de fato, envereda por esse caminho?

Pelos personagens serem bem evocativos no que tange o mosaico social francês de hoje, não citarei seus nomes, mas sim as origens de cada qual. Estamos, portanto, acompanhando a história de um marroquino – chefe da gangue -, um afro-descendente e um tipicamente francês, branco-gelo-europeu. De início, envolvem-se num roubo de carro-forte que transportava passaportes em branco e cuja venda retorna um dinheiro milionário. O plano seguiu de acordo com o esperado e a atividade é bem-sucedida. No entanto, o irmão do marroquino vendera uma das armas para outra gangue, ao invés de, conforme o combinado, dar sumiço juntamente com todas as outras. A polícia chegara, pela perícia, àquela glock e prendera o soldado deste outro grupo. E, para saldar essa dívida, agora os assaltantes protagonistas deverão roubar uma carga de heroína de forma que não sofram a retaliação prometida pelo grupo enganado.

A gangue em atividade.

A 1h21 de filme faz com que seu ritmo seja bem marcado, parecendo uma grandiosa perseguição, pois raros são os momentos em que a obra não investe em boas sequências de ação. A narrativa é tão fluída que, próximo à conclusão, temos a clara impressão de que aquele fora somente o primeiro ato da produção. No entanto, isso resulta em um ponto negativo: apesar de haver um tantinho de aprofundamento dos dois principais personagens – o marroquino e o francês – o roteiro não realiza o que esperávamos de antemão, isto é, uma construção bem mais densa de seus protagonistas. Não obstante, o longa não se resume às perseguições e cenas de tiroteio e fuga. Sabemos os conflitos pessoais desses dois personagens e o que os motiva a realizar atos fora da lei. Conhecemos seus íntimos, revelando a moral e a ética deles. Há alguém por trás daquela carcaça de ladrão em um filme etiquetado por um gênero marcado. Mais do que tudo, ainda, há uma efetiva construção nas relações pessoais desses protagonistas.

Mas o supracitado mosaico social francês representado nesses três integrantes da gangue cai na velha armadilha ocidental de um dos países mais imperialistas de outrora. A análise mais sóbria de seus personagens revela um discurso, no mínimo, de acordo com o pensamento do século XIX. O personagem negro – dos três principais – é o que menos voz tem na história, dando-nos muito pouco sobre sua construção; o marroquino é o típico badass, que tem problemas familiares, mas que ama seus conterrâneos, apesar de ser um cara mais egoísta (em determinada cena, inclusive, ele expõe que rouba pela adrenalina da iniciativa), chegando próximo de vestir uma armadura de vilão; e o terceiro, o francês-branco-gelo, que é o personagem com o qual o espectador mais se relaciona (ele tem sua mulher, seu filho e está fazendo isso – só mais esse trabalho e, então, ele para – para dar uma vida melhor à sua família, já que trabalha carregando caixas e ganhando muito pouco). Portanto, um sem voz, um quase vilão e um que guarda certa bondade no olhar e tem uma motivação mais humana em sua ação condenável.

Ladrões versus ladrões.

O filme é, de fato, envolvente e as cenas são dirigidas com competência, conseguindo a atenção daquele que assiste. A fluidez da edição e o timing da história são muito bem marcados, ajudando no desenvolvimento da narrativa. O ponto mais forte da produção é a construção das relações pessoais, que faz da obra algo além de um simples filme de gênero. No entanto, os estereótipos que sugerem, a meu ver, certa dose de preconceito tiram um pouco da louvável condição que o filme parecia ter. Muito difícil, em momento de extremismo, conseguir exorcizar pensamentos que se fazem tão presentes por séculos e mais séculos.

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