O cinema tem ciclos onde os gêneros em voga se alternam e a indústria foca seus esforços em explorá-los até que não reste uma gota a ser extraída, até que tal gênero canse o público e entre em hibernação por mais algumas décadas. Tivemos a febre dos filmes de catástrofe no fim dos anos 70 e no fim dos anos 90. O mesmo ocorreu com vampiros, muitos filmes nos anos 50/60, depois nos anos 80/90, até que as recentes sagas adolescentes enfiaram uma estaca nesse gênero, fazendo-o provavelmente adormecer pelos próximos 10 ou 20 anos.

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Com “The Walking Dead”, primeiro no gibi e depois na TV, as histórias de zumbi – muito populares nos anos 70/80 com os filmes do George A. Romero (homenageado em nosso Assista!: A Noite dos Mortos Vivos) – retornaram ao imaginário popular com força total, trazendo todo o tipo de produto: livros, filmes, séries e spin offs, quadrinhos, brinquedos… E hoje parece que vivemos sua ressaca, quando o gênero começa a perder força e desaparecer lentamente no limbo da cultura pop. E é com essa sensação de “o que houve depois do apocalipse zumbi?” que a Netflix apresenta Cargo, filme de produção australiana lançado sexta-feira pelo canal de streaming.

Martin Freeman in Cargo (2017)

Cargo explora o tema clássico de The Walking Dead – “O que acontece com os sobreviventes depois que o mundo civilizado vai pro caralho?” – sob um ponto de vista único: “O que acontece quando você é mordido por um zumbi e está sozinho no meio do deserto australiano com sua filha bebê?”. É com essa premissa peculiar que o filme brilha, criando não uma história de terror ou aventura, mas um drama humano. Durante 1h e 45 minutos acompanhamos as últimas 48 horas da vida de Andy (Martin Freeman, brilhante, com aquele olhar de camarada) enquanto ele procura uma alma boa que se encarregue de cuidar de sua filhinha Rose depois que ele virar morto-vivo.

Baseado num curta-metragem homônimo lançado em 2013 e dirigido por Ben Howling e Yolanda Ramke (que também assinam o longa), o filme acompanha o raciocínio bastante válido presente na série que foi o estopim inicial da febre desse gênero. Num apocalipse zumbi, em algum momento, os zumbis serão o menor de nossos problemas. Teremos que enfrentar a escrotidão humana, a maior doença que esse planeta já enfrentou. E escrotidão humana em doses concentradas e cavalares quando os valores da civilização desaparecerem e as pessoas se mostrarem como realmente são, sem filtros ou freios. Andy, além de se esquivar dos zumbis que assolam o árido outback australiano, além de lutar contra suas próprias mazelas de zumbi-em-transformação, nos aponta o preconceito, a ganância e a feiura de nós mesmos quando não há mais maquiagem que nos embeleze.

Martin Freeman in Cargo (2017)

O filme, no entanto, o faz de maneira elegante, focando na interação dos personagens, na atuação dos atores. As situações são guidas pelo desespero de um pai moribundo que precisa decidir como melhor ajudar sua filha no pouco tempo que lhe resta. Não há exageros de sangue e vísceras, ou nenhum tipo de violência gratuita. É um filme que foca na emoção e tensão presentes nas situações e não na estética do grotesco que tornou-se quase que hegemônica na última década e que me afastou de The Walking Dead já na segunda temporada. Eu gosto de histórias de zumbis. Muito. Gosto muito da ideia de uma história que narre as conseqüências de um apocalipse zumbi. Mas o espetáculo de sordidez e violência deixou de ser um dos elementos da série e passou a ser a principal razão para as pessoas se reunirem, extasiadas, em maratonas, e isso me assustou mais do que qualquer das cenas de terror. Assisti a este Cargo com a sensação de ver o que queria ter visto na série e que se perdeu quando os produtores decidiram alimentar o gosto do grande público.

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