Esta é a crítica da 2a temporada de Castlevania e que provavelmente contará com spoilers da 1a temporada, cuja crítica você pode conferir aqui.


Ano passado quando saiu a notícia de que a Netflix ia apresentar uma série animada baseada no videogame Castlevania, eu encarei como encaro qualquer notícia que se refira a um jogo sendo adaptado para o cinema ou televisão, ou seja, cravei que seria uma merda. Fiquei mais animadinho quando anunciaram que o argumento ficaria a cargo do mito dos quadrinhos Warren Ellis, mas ainda com os dois pés atrás. Felizmente, depois de 4 curtos episódios que deixaram um gosto de quero mais, eu calei a minha boca e cravei: Castlevania é a melhor adaptação de qualquer coisa do mundo dos videogames para o audiovisual da história. Não que precisasse ser grande coisa para conseguir esse título, mas a série era realmente boa, tendo recebido boas resenhas por toda a imprensa e também pelo nosso Ryan Fields no link acima.

Contudo, ficou aquela impressão de que a história foi apressada para um cacete e que teriam sido necessários pelo menos o dobro dos 4 episódios da 1a temporada para fazer jus àquela história que mostrava. De maneira simples, recheada de ação, sangue e diálogos que são a marca registrada de Ellis, a 1a trazia o conto do amor de Drácula por Lisa, sua esposa, cuja brutal, injusta e mesquinha morte enquanto bruxa pela inquisição o fez embarcar numa impiedosa cruzada com o objetivo de dizimar a humanidade. Durante seu primeiro e sanguinário ataque, fomos apresentados também às figuras de Trevor Belmont, o caçador de vampiros clássico dos games, Alucard, filho de Drácula também clássico, e Sypha (essa eu não conheço), uma feiticeira.

Atendendo aos apelos dos fãs imediatos da série, a Netflix houve por bem lançar 8 episódios nesta 2a temporada, o que imediatamente foi recebido com um sorriso nos meus lábios. Contudo, se há algum problema nesta 2a temporada, é justamente o ritmo, prejudicado por uma quantidade grande demais de episódios. Isto porque temos agora dois núcleos bem definidos e que inevitavelmente vão entrar na porrada ao final. De um lado temos um Drácula agora cansado e desprovido da sede assassina da 1a temporada, tendo que entreter uma corte de seus vassalos vampiros para dar continuidade à guerra. Do outro, temos os nossos três herois caçando a antiga mansão Belmont onde pretendem encontrar artefatos e informações que lhes permitam evitar o genocídio (palavra usada várias vezes mas que não havia sido inventada à época) humano.

Ocorre que perde-se um tempo tremendo nas maquinações da corte de Drácula e também na tal residência dos Belmont. Enquanto que na corte de Drácula tem-se pelo menos a apresentação e desenvolvimento de novos personagens, no outro núcleo temos, sim, bons diálogos e o desenvolvimento dos 3 personagens que lá estão, mas fica-se com a impressão de que aquele núcleo meio que deu uma freada para que o dos vampiros avançasse. Para além disso, temos apenas alguns furos no roteiro que são justamente obra dessa lenga lenga do caralho, mas que de forma alguma estragam a obra.

Dito isso, eu não tenho vergonha nenhuma em dizer que, puta que me o pariu, todo o resto é absolutamente magistral. A animação continua no mesmo nível altíssimo da 1a temporada, Ellis conseguiu formular diálogos ainda mais sensacionais do que os de antes, os novos personagens apresentados são todos bem desenvolvidos e carismáticos ao extremo e a qualidade da dublagem (em inglês pelo menos) é inigualável, sendo até mesmo difícil destacar alguém nesse quesito.

Apesar de se perder um pouco de tempo demais no desenvolvimento dos necromantes humanos de Drácula, Isaac e Hector, a apresentação dos novos personagens é feita de forma cuidadosa, com destaque para o vampiro viking Godbrand, interpretado desvairadamente pelo excelente ator sueco Peter Stormare. “Não tem nada aqui que você não queira foder, comer ou usar para fazer um barco”, afirma Carmilla, a vampirona boladona da corte de Drácula. “Eu sou um Viking, caralho! Eu gosto de barcos.”, deliciosamente responde Godbrand. Não lembro se este personagem participa dos jogos, mas, se não participa, rogo à Konami que remedie isso o mais rapidamente possível.

“Seus olhos que se fodam. Eu quero sangue e cerveja!”

Todos estes elementos se arrastam um pouco nos 6 primeiros episódios, mas culminam de forma violenta e alucinante no 7º e espetacular episódio que – além de finalizar o fascinante arco de culpa, luto e negação de Drácula – provoca aquela catarse em todos nós com cenas de ação frenética e violência absolutamente despudorada. Ao final deste episódio, Warren Ellis ainda foi magnânimo o suficiente para nos dar um respiro no 8º, que funciona como um epílogo desta temporada e um gancho para a próxima. Acho bom que, em nome de Drácula, a Netflix não deixe de entregar.

Temos aqui então uma série tecnicamente irrepreensível, que tem seu ponto alto não apenas na ação quando ela é apresentada, mas, principalmente, nos diálogos primorosos que são a marca registrada de Ellis, ainda que ela seja prejudicada por episódios irregulares e um ritmo que, até a sua metade, seja talvez um pouco lento demais. Mais do que nunca, Castlevania é a melhor coisa a sair dos videogames e ser adaptada para o audiovisual.

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