Das frases cunhadas pelo mestre do horror Stephen King, “às vezes, morto é melhor” é uma regra que, nem sempre, é cumprida pelo Cinema. Para o bem e para o mal, remakes têm sido um dos pratos mais servidos pelas telas contemporâneas. No menu desta semana, um clássico de King, de onde, aliás, a tal frase foi tirada: Cemitério Maldito. Quem foi adolescente nos anos 90 viveu olhando apavorado para os gatos após assistir ao filme de 1989. Nas mãos da dupla  Kevin Kölsch e Dennis Widmyer, a obra retorna quebrando a regra de deixar os mortos para trás. E o resultado, dessa vez, é bem interessante.

Os diretores já acertam de cara ao deixarem claro que o filme não é uma releitura da produção de 1989, mas, sim, do livro de Stephen King. O eterno adolescente dentro deste crítico quer dar um soco na cara de sua versão adulta enquanto ela pensa na próxima frase a ser digitada. Mas, desculpa, Marco teen, o filme de 89 era bem tosco. A versão atual aprofunda temas e camadas que se destacam na escrita de Stephen King.

Em busca de maior qualidade de vida, o médico Louis (Jason Clarke) se muda de Boston para o interior do Maine com sua esposa, Rachel (Amy Seimetz) e seus dois filhos fofos: Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Hugo e Lucas Lavoie). Tirando o fato da propriedade ser cortada por uma autoestrada na qual caminhões passam em velocidade máxima, tudo parece bem. Até que a desgraça chega (não é bem um grande spoiler, mas façam as contas caminhão + criança pequena + filme de terror) e o cético doutor descobre que sua casa fica na área de um antigo e mágico cemitério indígena e de animais de estimação, cujas terras possuem o dom de devolver à vida o que ali for enterrado. Mas os mortos voltam em versão “morto era melhor”.

Cemitério Maldito v.2019 ganha força ao perceber, através do roteiro bem amarradinho, o potencial metafórico comum às obras de King. Mais do que sustos (que estão no longa, gato do inferno), os realizadores percebem que o tema em discussão é a aceitação da morte e os estágios do luto. Assim, o desespero do Dr. Creed e suas ações desmedidas são interessantemente encenados como símbolos da nossa incapacidade de lidar com a prova de impotência que a morte joga na cara de cada um de nós. Ao apostar no caráter simbólico da parada, Kölsch e Widmyer dão um passo adiante na construção do filme.

Tecnicamente, a produção mostra que dinheiro dá uma ajudada boa. Fotografia bem feita, edição espertinha, cenários bem construídos. Aliás, no aspecto cenário, o filme brinca com a seriedade que o cinema de terror tenta, muitas vezes, impor e que acaba reforçando o efeito tosquice inevitável ao gênero, posto que a verossimilhança está sempre em delicado equilíbrio nele. O cemitério é feito com um excesso de neblina e uma luz tão artificializada que acaba tomando um ar muito interessante de pastiche e reflexão sobre os arquétipos da morte e do cinema de terror. Eu chamaria a abordagem de “tosco-hipster-jungiano”. Gostei.

O longa também aposta em uma construção de personagens mais trabalhada que a maioria dos filmes do gênero. Embora o resultado seja misto, dando muito certo na elaboração do protagonista e entregando boas cenas para a participação luxuosa de John Lithgow como o vizinho Jud, que apresenta o cemitério macabro à família, ela acaba soando meio forçada na elaboração de um “trauma de infância” na personagem de Amy Seimetz. Porém, não há não como negar que o filme se mostra mais sofisticado que muitos de seus congêneres nesse ponto.

E os saudosos, por fim, terão que esperar os créditos para ouvirem o maior legado da versão 89: Pet Sematary, que acabou se transformando em um dos maiores sucessos dos Ramones. Só que ela volta em versão moderninha e bem legal da banda Starcrawler. Ok, o Marco teen acaba de me dar um soco no olho…

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