Há homens que lucram com a guerra. Há homens que se escondem da guerra. Há, ainda, aqueles que lideram as guerras.

Há homens que lideram uma guerra de dentro do front, como Alexandre, o Grande. Há, ainda, aqueles que lideram as guerras de seu gabinete, sem, no entanto, se esconder atrás de suas ações ou jogos políticos famigerados. Como Winston Churchill.

O mais novo filme de Jonathan TeplitzkyChurchill, é lançado entre duas obras que trazem o mesmo contexto e fazem referência a este mesmo personagem histórico: Dunkirk, sobre a retirada de Dunquerque, liderada por este primeiro-ministro; e O Destino de uma Nação, também sobre ele (ainda a estrear no Brasil).

A obra Churchill não surge como aquelas cinebiografias que tratam de toda a vida e trajetória de determinado personagem. Ela foca tão somente em um momento específico de sua jornada enquanto primeiro-ministro britânico: a formação da Operação Overlord (o desembarque na Normandia por tropas britânicas e americanas, mais conhecido como Dia-D). O conflito é algo extremamente humano. Contra todas as probabilidades, quando estamos tratando de um estadista, o que está em cheque aqui é o fato de Winston ser completamente contra o formato da invasão aliada à França dominada pelos Nazistas, pois é arriscado, especialmente, para os soldados participantes. É evidente que o representante do Reino Unido se preocupa politicamente com o risco da derrota, mas seu maior medo é enviar jovens combatentes para uma carnificina que se anuncia.

A irreverência de Churchill no famoso gesto que não é exatamente um “V” de vitória.

Com uma sequência inicial muito bela, com elementos oníricos saltando à tela, vemos como se um devaneio de Churchill (pelo sempre seguro e forte Brian Cox) caminhando à beira-mar se (re)encontrando com as marés vermelho-carmesim, legado de um conflito como jamais visto anteriormente. Conflito este que retornaria – como continuação daquele primeiro – em uma expressão ainda maior. A força do enfrentamento de Winston vem da sua expressão anterior: que o mar não voltasse a ter a mesma coloração de antes. Muito embora, as grandes potências estivessem caminhando para que isso acontecesse.

Apesar da magnitude da História da II Guerra Mundial, apesar da grandeza da história contada por Teplitzky, o roteiro escolhe focar tão somente nos espaços íntimos do estadista britânico. Se a sinopse poderia sugerir um conto recheado de esplendor, o que vemos diante de nós são os pensamentos, as elucubrações, a ansiedade, as irritações (com subordinados, com a mulher Clemmie – atuada pela sempre fantástica Miranda Richardson) de um homem velho, mas que não se entrega ao cansaço e aos jogos sujos de poder. Entramos em suas salas de reuniões, em seus cômodos mais silenciosos, em seu quarto, onde (em uma situação de desespero) eleva sua súplica a Deus, em uma tentativa de revisitar hábitos há muito esquecidos. Da escolha exata de suas palavras para os discursos (que se tornariam dos mais conhecidos na História da Humanidade) que iriam motivar e encorajar uma nação à tomada de decisões que mudariam os rumos da sociedade, acompanhamos o dilema de Churchill quase que como um membro de sua família.

A intimidade do maior estadista de todos.

Churchill, o filme, surge em um momento em que nos parece ser cada vez menos importante a vida humana, bem como a construção social. Teplitzky reconstrói o palco do evento mais destrutivo já promovido pelo homem para relembrar conceitos há muito esquecidos. Mais do que não querer ser engolido por uma força que, até aquele momento, se apresentara indestrutível, o posto máximo do poder de uma das maiores potências de todos os tempos estava, de fato, preocupado com a vida de jovens conterrâneos prontos a oferecerem sua carne, como em um sacrifício em massa por sua terra natal. Não à toa, Churchill, o primeiro-ministro, é considerado usualmente como o maior britânico de todos os tempos.

Sugestões para você: