Em um dos mais famosos textos da Literatura Brasileira, o Poema de sete faces, Carlos Drummond de Andrade anunciava um sujeito que, anunciado por um “anjo torto, desses que vivem na sombra”, cumpriria sua sina de ser “gauche na vida”. O gauche é aquele que não se encaixa no mundo, o torto o errado. Décadas mais tarde, Adélia Prado responderia a Drummond dizendo que ser gauche é coisa de homem. No seu Com licença poética, um “anjo esbelto, desses que tocam trombeta” anunciaria a maldição das mulheres, “esta espécie ainda envergonhada”: carregar bandeira. Cumprir a sina de inaugurar linhagens e fundar reinos, descobrindo que “dor não é amargura”. Ser gauche é coisa de homem. “Mulher é desdobrável”.

Cada um dos sete episódios de Coisa Mais Linda, a mais nova produção brasileira da Netflix, me fez resgatar na memória o poema de Adélia. Passada em 1959-1960, a série nos apresenta Maria Luíza (Maria Cassadevall), filha de um rico fazendeiro paulista, que, chegando ao Rio de Janeiro para encontrar o marido, descobre que foi abandonada por ele (que, de lambuja, ainda rouba todo o dinheiro da moça). Sozinha, com um filho e uma história interrompida, ele decide abrir um clube de bossa-nova na cidade maravilhosa. Com um time de amigas empoderadas e sofridas, Malu encara as dores e as delícias de ser mulher em um mundo que, ruim hoje, pior em 1959, não tolera as asas femininas.

Embora o resultado seja mais um acerto da Netflix, a série possui seus escorregões. Então, antes dos elogios, vamos encarar logo os elefantes da sala. Primeiro, fica muito claro que a produtora de streaming deseja uma carreira internacional para Coisa Mais Linda. Para torná-la mais palatável aos gringos, no entanto, criam-se algumas concessões que, para o espectador brasileiro, soam tantinho indigestas. O primeiro episódio (graças aos céus superado pelos outros) é o que mais exibe tais artifícios. Os diálogos soam bem artificiais em português e prontos para ficarem lindos quando legendados em inglês. Além disso, há uma artificialização que também aparece em certos mecanismos facilitadores para criar identificação em terras estrangeiras: um Garota de Ipanema em inglês na abertura, uma ênfase em cenários facilmente reconhecíveis mundo afora, uma pegada bossa-nova pra inglês ver. Apesar dos prós superarem em muito os contras, estes não passam despercebidos.

Mas, falemos das muitas coisas boas agora. Começando pela melhor delas, o maravilhoso elenco feminino. Capitaneando o barco, Maria Casadevall, descontando-se a atuação morna do primeiro episódio, fruto maior do roteiro (neste episódio, que fique claro) que da atriz, brilha ao construir uma Malu cheia de camadas e absolutamente crível e gostável. É uma performance de brilho nos olhos, uma atriz tomando uma personagem.

As demais atrizes também exibem um trabalho de encher os olhos. Ajudadas por um texto que desenvolve com bastante competência cada um dos plots secundários, cada uma delas tem a chance (e a utilizam) de brilhar. Como Adélia,a empregada doméstica negra, analfabeta, guardando um segredo íntimo e encarando machismo e racismo todos os dias, Pathy DeJesus é o grande destaque do elenco.  Completam o grupo principal Fernanda Vasconcellos, em inspirada atuação como Lígia, esposa de um político com aspirações a ser o novo prefeito da cidade, que, imersa em um relacionamento abusivo, se vê abrindo mão do sonho de ser cantora em prol do sonho do marido, e Mel Lisboa, que de maneira muito “energética” e apaixonada ergue Thereza, uma jornalista bissexual que tenta ganhar espaço em um meio dominado por homens, enquanto vive um enorme trauma no próprio casamento. Por falar nas mulheres do elenco, é uma alegria ver a volta de Ester Góes às nossas telas, dando vida a mais uma daquelas vilãs que caem como uma luva para seu ar chique-malévolo. O elenco masculino também não faz feio, com destaque para Ícaro Silva no papel do sambista Capitão.

Coisa Mais Linda também se avulta pela sua coragem. A série não se furta a assumir um posicionamento. Assim, o espectador é confrontado com uma produção feminista na maior potencialidade que o feminismo assume enquanto visão de mundo. Bonito e triste de se ver ao mesmo tempo. Triste porque o texto deixa claro que, seja 1959, seja 2019, mulheres são, sim, vítimas de uma estrutura social que as considera, sim, cidadãos de segunda classe. Questões como o direito sobre os próprios corpos, sucesso profissional ser visto como empecilho para a “plenitude”, a concessão dos próprios sonhos para que os homens realizem os deles, tudo está lá tal qual hoje. Bonito de se ver como a produção mostra a sororidade enquanto uma força e reafirma para os que teimam e fingem não ver o quanto ser mulher é ser, intrinsecamente, resistência.

Outro alvo meritório é a maneira como, ao afastar-se dos momentos “pra gringo”, a produção faz um uso interessante de umas das marcas da dramaturgia brasileira, que é o bom uso dos recursos folhetinesco (que, há décadas, nossas novelas mandam ver). Assim, os sete episódios são ágeis, cheios de plot twists que, em nenhum momento, soam inverossímeis. Em alguns momentos tem-se a sensação de estar assistindo um novelão no melhor sentido que um novelão pode ter (aliás, algumas séries atuais e eu não vou citar nomes para não ser deselegante deviam assistir umas novelas para voltar a ter ritmo). Ponto alto de Coisa Mais Linda, o final do último episódio tem uma virada “Big Litlle Lies” encontra “Avenida Brasil”.

Tecnicamente eles dão um show. A fotografia é impecável (aliás, há tempos não via uma luz tão bonita em séries), figurinos e produção de arte são maravilhosos, a reconstrução de época brilha e até os efeitos especiais, zona que costuma dar arrepios quando fora do cinema, encontram-se bem longe da tosquice. A reconstrução do Rio de Janeiro também é um momento à parte. Aliás, Renê Vettori, valendo-se muitas vezes de chantagens e outros golpes baixos, me fez pegar a série para criticar usando o meu maior amor da vida, que é a cidade do Rio de Janeiro. E, na representação do Rio, Coisa Mais Linda bate um bolão ao não edulcorar um dos aspectos mais cruéis do Rio: a cidade é linda, calorosa e inovadora. Mas, também, possui um lado B que a faz agir como uma Corte cruel, preconceituosa e mesquinha. Os dois Rios estão muito bem representados na produção.

Que venha uma segunda temporada. Porque, dentre os vários acertos, retomo Adélia Prado ao dizer que “Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô”. Coisa Mais Linda é uma vontade de alegria no menu da Netflix.

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