No ano passado, este crítico que vos escreve, leitor MetaFictions, invocou o belíssimo poema “Com licença poética”, da mais que bela Adélia Prado, para falar sobre a então estreante série nacional da Netflix, Coisa Mais Linda (este texto você pode ler aqui). Hoje, para falar da segunda (e muito boa) temporada, vou ter que recorrer aos versos de Adélia de novo, que se espalharão nestas mal traçadas linhas (acordei vintage hoje).

Mas, antes, vamos relembrar onde a primeira temporada nos deixou e para onde a segunda rumou. Malu (Maria Casadevall) e suas amigas estavam na mira de uma arma empunhada por Augusto (Gustavo Vaz), o insuportável, machista e ciumento marido de Lígia (Fernanda Vasconcellos). Na última imagem gravada na nossa cabeça, Lígia tinha sido alvejada no peito e Malu na barriga. A segunda temporada começa nas consequências da fatídica noite e avança nas dores e delícias desse grupo de mulheres lutando para serem o que são. Malu terá de lidar com a volta do marido fujão e com os problemas decorrentes dela, incluindo a gestão do clube, Thereza (Mel Lisboa) sofrerá o embate de ter de decidir entre casamento e carreira, Adélia (Pathy Dejesus) lidará com seus fantasmas amorosos e escolhas. Além disso, a série também abrirá espaço para a história de Ivone, irmã de Adélia, que, antes uma adolescente, agora se afirma como mulher em busca de realizar o sonho de ser uma cantora.

“Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir”, diz o poema de dona Prado e parece dizer a Dona Netflix também nessa temporada. De cara, é muito bom dizer que o maior problema da temporada passada foi extirpado. Aquele tom gringo, de série-made-in-Brazil- com- Z, foi, felizmente, abandonado. Coisa Mais Linda se assumiu Bossa Nova e, não mais, Bôussa Nôuva. Respirou bem demais. Nesse quesito, ela assume até mais o seu aspecto novelão que, apesar de tirar uma certa contundência mais marcante que a primeira leva de episódios exibia, garantiu bons momentos e um ótimo ritmo nessa segunda.

“Acho o Rio de Janeiro uma beleza” e, situada dessa vez em 1960, a série também acha. A direção de arte continua impecável e um de seus maiores méritos é a forma como ela, ajudada por figurinos, cabelos, maquiagens e cenários do mesmo nível, constrói uma história de época sem dar ao espectador aquela sensação incômoda de estar assistindo a algo antigo feito na modernidade. Todo o aspecto visual, incluindo-se, agora, a excepcional fotografia, soa “old fresh”.

É preciso destacar, também, o precioso trabalho de edição. Dinâmica, sem se videoclipar, mas imprimindo um ritmo excelente à narrativa, ela se destaca no todo. Os seis episódios passam, cada um com quase uma hora, sem enfado algum. Sorriso na tia do ritmo.

“Mulher é desdobrável” e esse elenco de mulheres prova isso. Dessa vez, a química entre elas, que já era grande, se potencializa e permite que novas camadas das personagens atinjam a superfície da tela. Todas as atrizes principais estão muito bem, mas é preciso destacar o trabalho de Maria Casadevall, tomando posse plena do protagonismo de sua Malu, e de Mel Lisboa, que avançou muitas casas e, passando por várias nuances de construção de sua Thereza, foi uma garantia de momentos memoráveis. Ah, e se na temporada passada foi uma delicia ver a veterana e maravilhosa Ester Góes (que continua na série), dessa vez o sabor ficou melhor ao se trazer para o espectador o prazer de voltar a ver brilhar a diva Eliana Pittman, em participação como Elza, mãe do sambista Capitão (Ícaro Silva). E com direito à canja, hein!

“Vai carregar bandeira, cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada”, anunciava o anjo esbelto do poema. Coisa Mais Linda aceita a incumbência e continua a discutir temas importantes para as mulheres. Aliás, um dos destaques da série, é a maneira como ela se assume feminista no mais amplo e imprescindível sentido do termo. Do amor e suas potencialidades, passando por racismo, sexismo e o horror da violência que ousa se justificar, imoralmente, em nome do amor, a série assume o ponto de vista das mulheres e amplifica as vozes delas. Justo, necessário e relevante.

“Dor não é amargura”, diz Adélia Prado. “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor. Brilha tranquila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor”, crava Tom Jobim em um dos clássicos da Bossa Nova. Coisa Mais Linda voltou apontando, com delicadeza, que nos interstícios entre tristeza e alegria, se acha um espacinho pra cantar.-*

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