Quando eu era mais jovem (sim, mais ainda, quero dizer) minha grande aspiração era ser uma escritora. Eu não fazia ideia de nada da minha vida profissional – mudei de escolhas na faculdade cinco vezes antes de me matricular e, ainda assim, atuo em mais de uma área. No entanto, o desejo de escrever sempre esteve em mim e eu costumava me prometer que não importava o que me tornaria pois no final das contas eu teria essa que era minha única certeza: serei escritora.

Spoiler alert: não sou escritora (de livros). Felizmente não se apagou, contudo, a chama da escrita e ela se uniu, na verdade, com a paixão pelo Cinema. E falando nele, ironicamente cá estou, numa dinâmica um tanto quanto metalinguística, resenhando um filme sobre uma escritora. Colette, tomadas as proporções temporais, fala de mim e de tantas outras mulheres que têm algo a dizer para o mundo e que incansavelmente buscam sua própria voz para fazê-lo.

O filme traz à luz a história de Gabrielle, que se torna Colette devido ao sobrenome que adquire do marido, Willy, um renomado crítico parisiense. Tomada pelos encantos de um homem com o dobro de sua idade, bem sucedido e, honestamente, se comparado a muitos machistas boçais da época, à frente de seu tempo, a ainda menina decide casar com ele. O filme mostra com perfeição como o amadurecimento da mulher cresce sempre em função dos moldes em que aquele relacionamento a coloca; inevitavelmente, há um momento que essa dinâmica se torna tóxica e insustentável.

É nesse contexto de molde de personalidade e necessidade por aprovação do marido que nasce a série de livros Claudine; neles, Colette deposita suas memórias de infância, desejos ainda sendo descobertos e descobertas sobre si mesma que vão exteriorizando conforme os anos. Porém, há um importante detalhe: Willy é o autor perante o público, mantendo assim o talento da esposa escondido e manipulado conforme melhor lhe servia.

Wash Westmoreland traz um roteiro bem escrito e também dirige o filme com a sensibilidade já esperada, considerando seu último trabalho, o emocionante “Para Sempre Alice”. Deixa claro em sua produção a crítica à demasiada preocupação com o parecer, e não com o ser de uma sociedade parisiense egótica e hipócrita na virada do século XX. É fantástico como ele traz o debate de gênero e sexualidade (sim!), na medida em que nos apresenta personagens queers e traz como elemento relevante a descoberta sexual de Colette, que tem casos com mulheres e subverte o conceito de ser feminina da época.

Por fim, é espetacular que o filme mostre a ideia de superação (a melhor palavra aqui seria a original outgrow) entre o quem você é e quem te mandaram ser; o encontro com o seu verdadeiro eu, um abraço esperado por tanto tempo e que não mais é dado por alguém, mas por você mesmo e para você mesmo. Ela cresce para além do seu relacionamento; cresce para além de sua arte; liberta-se da ingênua Claudine para ser a poderosa Collete, numa belíssima jornada de empoderamento e autoconhecimento.

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