David Hare é o roteirista responsável por pequenos clássicos do cinema britânico recente, como “Perdas e Danos“, “As Horas” e “O Leitor“, todos adaptações de livros. Quase todos os seus roteiros são adaptações, o que explica a incerteza que se tinha quando a BBC Two britânica anunciou Collateral, minissérie em 4 partes de 55 minutos produzida pela BBC e distribuída internacionalmente pela Netflix como mais um de seus originais.

Nesta minissérie policial, acompanhamos 4 dias – um por episódio – da investigação conduzida pela gravidíssima detetive Glaspie (a sempre excelente Carey Mulligan) de um assassinato cometido contra um imigrante ilegal muçulmano. Não se trata de uma obra do gênero whodunit (na qual ficamos tentando descobrir quem é o assassino), o culpado é explicitamente apresentado logo ao final do 1º episódio. O foco aqui é entender as motivações da pessoa e toda a lógica por trás daquele crime que vai ficando mais intrincado a cada minuto.

A investigação, contudo, é quase que somente um pretexto para que Hare, valendo-se muito das cenas com o Membro do Parlamento David Mars (John Simm) e ainda mais de toda a circunstância que cerca o caso, critique veementemente as políticas cada vez mais protecionistas da Inglaterra, o Brexit e as práticas britânicas quanto a refugiados e imigrantes em geral. E não fica só por isso. Hare ainda acha tempo para atacar a hipocrisia das religiões organizadas ao discutir a relação gay entre um padre da igreja anglicana – que na verdade é uma mulher e, portanto, seria mais correto dizer uma padre já que eu não faço ideia de qual seria o feminino para padre – e uma maconheirinha imigrante ilegal e a relação de poder entre homem e mulher no ambiente de trabalho na figura de um oficial do exército que tenta se valer de sua patente maior para se aproveitar sexualmente de sua subordinadas, a capitã Sandrine Shaw (Jeany Spark), peça vital para a investigação e aparente gêmea de Benedict Cumberbatch.

Com um roteiro muito bem urdido, a detetive Glaspie vai afundando cada vez mais dentro de uma teia conspiratória muito mais complicada do que o que se imaginava inicialmente, logo deixando claro ao espectador a razão de ser do título da série. Hare faz um belo trabalho no ritmo da trama, no desenvolvimento dos personagens e nos diálogos.

Contudo, a impressão que se fica é a de que talvez ele tenha tentado abordar pontos demais ao mesmo tempo em que precisava resolver um caso de polícia que vem a se tornar uma complicadíssima trama internacional, o que acaba por deixar aquele gosto de que nenhuma dessas questões recebeu mais do que uma leve pincelada. Em uma obra onde vários pontos relevantes são suscitados, é raro que qualquer um deles receba uma atenção maior, de modo que muitas das cenas aqui parecem fazer parte de uma trama que era para ter sido mais desenvolvida e não foi.

A direção de todos os episódios ficou a cargo de S.J. Clarkson, uma veteraníssima de séries televisivas conhecida por imprimir um ritmo ágil e cheio de cortes em suas obras. Aqui ela continua nessa mesma toada, adicionando ao seu repertório ainda uma quantidade que chega a quase irritar de tomadas de pessoas atrás de janelas, vidros ou qualquer outro objeto translúcido que ela pudesse arrumar, tudo numa aparente tentativa de dar um tom semi-documental à câmera, mas que funciona só em um primeiro momento e depois dá uma leve enchida de saco.

Felizmente, Clarkson faz um bom trabalho na direção dos atores, com destaque nesse departamento para Mulligan e uma cena de interrogatório da qual participam também o detetive Nathan (Nathaniel Martello-White) e o agente do MI-5 Sam Spence (John Heffernan).

Collateral é uma série policial competente, mas que parece tentar dar uma mordida maior que a boca ao abordar temas demais – em especial quando se tratam de temas de relevância absoluta e que merecem um aprofundamento maior – sem deixar, contudo, de entregar 4 episódios de qualidade inegável e de criticar inclementemente as instituições britânicas, e, por consequência, de todo o mundo ocidental, ainda que de forma rasa.

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