Qualquer um que já tenha ido ao Peru ou visto algum jogo da seleção peruana na Copa do Mundo tem a mais absoluta (e correta) certeza de que aquele é um país de população classicamente latino americana. Basicamente todo mundo que se vê na rua tem alguma evidente ancestralidade indígena, com este grupo perfazendo mais de 90% da população do país. O que isso quer dizer é que quase todo peruano tem um rosto inconfundivelmente de peruano, de índio, do povo responsável por algumas das maiores civilizações que este planeta já viu. Há, como é também comum ao resto da América Latina, uma elite historicamente branca que, desde o advento da colonização espanhola, é quem manda e desmanda.

Esta pseudo aula sobre o Peru serve pra que dentro do contexto de uma crítica de cinema a uma comédia romântica peruana, você me pergunta? Antes de responder isso, vamos à sinopse do filme. Maria Fé (Gisela Ponce de León) toma um pé na bunda do namorado e, a partir daí, ela parte em uma jornada de autodescobrimento, empoderamento de si própria enquanto ser humano e busca pelas coisas que realmente a fazem feliz, em detrimento do que fazia antes, que era tentar se sentir completa por estar com um parceiro.

Não é a San Francisco dos anos 80.

Falei sobre o Peru acima porque, sendo este um país que eu adoro, não pude deixar de ficar incomodado quando virtualmente todo mundo que estrela o filme é branco. Há apenas uma menina – a lindíssima Jely Reátegui – que realmente parece ser de verdade do Peru. Não por acaso, enquanto os demais personagens trabalham em lugares descolados e fecham negócios internacionais tal qual em qualquer filmequinho assim americano, essa menina é uma largada na vida, que cozinha bem e trabalha eventualmente em serviços tidos como subalternos, o que acredito ser reflexo daquele mesmo fenômenos das novelas mexicanas cheias de gente loira e de olho claro.

Este tipo de coisa soa como uma hipocrisia absurda em um filme que tem como seu principal objetivo elevar as mulheres enquanto um grupo historicamente oprimido e cuja existência é condicionada a um homem ao seu lado. E realmente é, mas, felizmente, é o único grande senão desta primeira produção original da Netflix no Peru. Incomoda também um pouco o fato de que este é um filme que poderia ser passado em San Francisco com bem mais naturalidade do que é em Lima. O pessoal aqui é todo super cosmopolita, hipster em um nível poucas vezes visto no cinema (com direito a barbudão de coque samurai tocando acordeão) e totalmente alheio à pobreza do resto do país. Não que isto precise ser um fator em qualquer produção feita por um país considerado pobre, mas as escolhas estéticas e de roteiro são tão derivativas das produções americanas que tudo acaba soando um pouco fora da realidade demais justamente porque toda esta questão é deixada completamente de fora.

O hipster selvagem em seu habitat natural.

Contudo, feitas aí todas as críticas negativas ao longa e a despeito delas, Como Superar um Fora é uma comédia romântica competente, com todos os elementos do gênero muito bem executados e um final desconstruído que cai como um luva dentro de sua proposta. Há uma mensagem muito clara e necessária, passada, ainda que com um certo grau de ingenuidade e irrealismo, de uma maneira muitíssimo bem construída pelo roteiro de María José Osorio.

Ainda que tudo pareça seguir a cartilha das comédias independentes americanas (tudo mesmo!) com seus personagens coadjuvantes esquisitões e/ou exagerados e lugares comuns dos filmes de gente que terminou relação, a força da direção e do roteiro é mais que suficiente para elevar Como Superar um Fora acima de muitas destas produções nas quais parece se inspirar, mesmo que lhe careça um tantinho de originalidade. Talvez até mesmo por isso que algumas das escolhas, em especial a do final, se destaquem por sua coragem de sair um pouco dos trilhos da formuleta que costuma ser usada neste tipo de obra.

A mulher solteira de 30 anos e as redes sociais.

Assim é que, em se conseguindo passar por cima da questão étnica-social colocada acima e também do fato de que é um filme peruano que poderia ser passado em Chicago com facilidade, Como Superar um Fora é uma excelente comédia romântica, que certamente agradará em especial às mulheres por causa de sua mensagem edificante, necessária e importante não só para elas. E, se como eu, você for incapaz de passar por cima da falta de representatividade dentro daquela sociedade e do fato de que ele poderia ter sido passado em Ipanema, ainda assim você deve se divertir.

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