Eu sempre gostei de filmes introspectivos que se passam todo (ou quase todo) dentro de uma mesma locação. Alguns são tão inspiradores que permanecem no meu imaginário até hoje. É uma coisa de gosto, não à toa já escrevi alguns roteiros nessa mesma linha. Talvez seja por, obrigatoriamente, agregar muito aos seus personagens. Não tendo muito para onde ir, a história tem que aprofundar no aspecto psicológico de seus protagonistas. E, quando isso ocorre, a narrativa toma proporções muito mais densas.

Sila Samayangalil (Contando os Segundos) é a mais nova produção Netflix de Bollywood e, deixando de lado (pasmem!) danças e cores para além do imaginável (sim, ninguém nessa obra dança!), este filme se torna mais um exemplo daquelas narrativas supracitadas. Começando com os elementos presentes em boa parte da cinematografia indiana, já estamos de frente para as relações de poder concretizadas na sociedade local, a falta de estrutura com milhões de transeuntes e carros a um só tempo, abismos sócio-econômicos e diversidades religiosas, logo nas primeiras sequências.

Apenas um dos obstáculos.

Em um lugar absurdamente povoado como a Índia, uma fila enorme se forma em um laboratório para exames. Os dramas mais imediatos das pessoas são enfrentar a falta de estrutura desse país que parece não ter controle sobre seu tamanho. Enquanto acompanhamos as reclamações dos clientes, conhecemos os problemas pessoais da atendente que se atrasara para o seu trabalho no guichê (aluguel não pago e uma necessidade imediata de levantar esse dinheiro para evitar que sua família seja despejada). Em seguida, somos apresentados aos conflitos de sete dessas pessoas que compunham a fila. Todos estão ali aguardando horas pelo resultado de AIDS, ainda a ser revelado naquele mesmo dia. E no salão de espera, começam a produzir contato entre si.

Aos poucos, vamos conhecendo o motivo pelo qual cada um ali está tenso à espera do resultado que define a vida de qualquer ser humano. “Ainda que não tenha feito nada, a tensão existe em cada um aqui”, impõe um dos personagens. Talvez para passar seu próprio nervosismo, ele, de forma pouco delicada, começa a se comunicar com os seis restantes, sendo efetivo na criação de um laço com apenas um deles. E como fica evidente o desespero que une este grupo, o rapaz decide subornar aquela atendente para que recebam o resultado antes do previsto. Ela, com o seu péssimo humor (evidentemente), aceita e volta com uma meia-verdade: “todos estão limpos, menos um”. E essa sentença os deixa com os ânimos mais à flor da pele até que possam receber, de fato, o envelope que os torna livres ou os aprisiona. Contando suas histórias que os levaram até ali, começam a avaliar as probabilidades.

6 dos 7.

O cenário é deveras interessante. Todos já passaram por situação semelhante de estar à espera de algo que pode definir por completo sua vida, que pode mudar os eixos do que passou até aquele instante. Como o título traduzido sugere, cada segundo é imperativo e o tempo se torna o algoz do indivíduo. Ninguém entende melhor a relatividade do tempo quando está em posição como essa.

Mas, apesar dessa construção, o diretor Priyadarshan parece não ir muito além daquela sala de espera (não no sentido físico, mas no psicológico). Os personagens continuam rasos, quase como no início, muito embora criemos empatia por alguns. As questões filosóficas que surgem de momentos como estes não são aprofundadas, deixando apenas uma introdução de reflexão. E a conclusão se perde por duas questões independentes entre si: o filme conclui com um texto de conscientização acerca da AIDS (chega a dizer que este é o propósito do filme – ?!); e, em relação ao fechamento dramático da narrativa, a expressão imagética que temos é algo muito próximo de uma cena eternizada em nossa memória, quando da nossa infância: o Serginho Mallandro proferindo as inesquecíveis sílabas:

RÁ! IÉ! IÉ! GLU! GLU“!

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