Acompanho os passos (ainda iniciais) do diretor iraniano Babak Anvari desde que me deparei com um belíssimo curta-metragem seu, chamado “Two & Two”, e que nos rendeu uma publicação no adormecido quadro CinePigmeu. Além disso, seu primeiro longa “À Sombra do Medo” foi indicado em um Garimpo e ainda está presente no acervo da Netflix. Nesta sexta-feria, o streaming lançou seu segundo filme, sendo a primeira produção grande norte-americana de sua carreira. Não é preciso mencionar o tamanho da minha expectativa para assisti-lo.

Will (pelo bom ator Armie Hammer) é um bartender que divide sua vida entre o trabalho noturno no bar e os afazeres cotidianos em casa, ao lado de sua namorada Carrie (pela boa Dakota Johnson), focada em sua tese universitária. O relacionamento não parece muito sólido, o que faz Will flertar constantemente com uma de suas freguesas, Alicia (Zazie Beetz). Mas a rotina dele será perturbada quando encontra um celular perdido por algum cliente. Tentando descobrir seu dono, ao procurar por vestígios nos arquivos, Will se depara com uma galeria de fotos e vídeos recheados de puro sadismo: cabeças cortadas e baratas que caminham rumo aos restos de alguém. As mesmas baratas que parecem persegui-lo em seu trabalho e casa.

A redução do indivíduo.

Mensagens estranhas direcionadas a ele, através deste mesmo aparelho, junto com um carro preto que parece persegui-lo faz com que Will vá perdendo sua sanidade. À medida em que o relacionamento vai se deteriorando, nosso protagonista começa a enveredar por um caminho perigoso, que o coloca no centro de delírios, mesclando as alucinações com a realidade. Sem poder mais distinguir um do outro, Will vai sendo tragado por um estranho jogo que fora ativado pelo celular encontrado; levando consigo as pessoas ao redor, tudo vai se dissolvendo tal qual um castelo de areia violado pelas insistentes ondas do mar. Babak Anvari vai utilizando a estrutura do suspense (e terror, mais levemente) para lapidar as alegorias que estão na tela. Tudo ali supõe alguma interpretação, não sendo jamais um elemento meramente conveniente para a narrativa. Em determinado momento, poucas coisas parecem fazer sentido, culminando em uma conclusão que, sabemos de antemão, irá provocar os comentários mais indesejados por parte de nosso público leitor, que odeia lacunas cinematográficas.

Contato Visceral vai, portanto, caminhando pelos lugares obscuros da mente ao enquadrar o protagonista de sua história em um loop mental de pequenas frustrações, tais quais o esfriamento de seu relacionamento, a recusa de um flerte mais intenso, uma vida que parece estática não levando-o a qualquer outro lugar que não os já previamente demarcados. Uma cena simples dele almoçando um sanduíche, sentado em uma escadaria, nos traz a verdadeira impressão de como aquilo, de fato, o incomoda. Sua luta não se apresenta como uma ação brusca de mudança. Não, essa transformação se dá de maneira violenta em uma ruptura mental que o desestrutura de modo a não ver mais nada claramente. O suposto celular, que iniciara essa perturbação extrema, é mais uma mera alegoria para aquilo que sempre esteve presente e só precisava de um leve empurrão para o caos reinante se apresentar. Não apenas o aparelho, mas diversos outros elementos (muitos dos quais expostos bem rapidamente em frames ou detalhes de cenas) vão dando forma à narrativa que necessitará da participação direta de seu espectador. Em uma das leituras possíveis, estamos de frente para o processo de formação de um psicopata em potencial que, a partir de suas frustrações, vai libertando, aos poucos, o que de mais demoníaco há dentro de si próprio.

“Complete-me”.

Mais uma vez, Babak Anvari realiza um filme sobre a natureza humana, utilizando-se de elementos pouco triviais e bebendo mais na água do sobrenatural ou do etéreo para falar daquilo que é demasiado humano. Ainda que, por diversas cenas, a obra se mantenha constante demais dando a impressão de que não desenvolve, não “engata”, talvez essa opção tenha sido apenas uma estratégia para demarcar os lugares comuns sentidos pelo protagonista. Apesar disso, até mesmo a quebra total do personagem se dá de forma muito sutil e Anvari, de maneira corajosa e valorosa, prefere concluir o filme em seu clímax. “Complete-me”, berra Will enquanto faz o seu primeiro ato hediondo.

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