O pensador britânico Terry Eagleton aponta para duas noções de tragédia na contemporaneidade. De um lado, o Grande Evento, a catástrofe gigante que, vinda de um outro mundo, nos choca pelo seu caráter abrupto e violento como, por exemplo, os atentados terroristas nos países desenvolvidos. A outra seria a tragédia que se manifesta pela perpetuação de uma realidade seca, desprovida de esperança, transformando o cotidiano em um perene estado de sítio, de emergência. É o dia a dia dos refugiados, dos pobres, dos invisíveis das nossas cidades. É neste último tipo que se debruça Corpo Delito, documentário de Pedro Rocha.

Acompanhando a trajetória de Ivan da Silva, presidiário em prisão domiciliar, usando uma tornozeleira eletrônica no cumprimento da pena, morador da Favela dos Índios, em Fortaleza, o longa cria uma atmosfera perturbadora para o espectador, o que contribui muito para a sua qualidade. Tal efeito ocorre em várias camadas, é importante dizer.

A primeira “perturbação” vem do próprio formato. O filme é um híbrido. Embora seja um documentário, ele se apoia numa estrutura de narração ficcional, em nenhum momento abrindo espaço para entrevistas ou explicações extras sobre o que se mostra. No entanto, pelo próprio caráter “real” do gênero, se os planos e o formato apontam para uma narratividade, os plot twists que as narrativas trazem, a causalidade que une um evento ao outro na ficção, não acontecem. Gera-se, assim, uma “frustração positiva”, que obriga o espectador a se contentar com as contingências da realidade, com o não-enfeite que mostra que, às vezes, o Cinema não é para sonhar, mas para levar soco na cara.

Edição e fotografia contribuem enormemente para esse efeito. O documentário contemporâneo, talvez por questões de mercado, tem apostado em uma montagem ágil, videoclipítica, YouTubeana. Aqui isso não ocorre. A edição marca presença, mas não deseja tornar palatável um fato que não é suave. Na mesma pegada, a fotografia é íntima, os planos são fechados e a iluminação não deixa perceber efeitos artificiais. Até mesmo a trilha sonora brinca com esse limite narrativo: as músicas (raps, axés, “sofrência” e afins) são geradas de forma direta, saindo dos celulares das pessoas mostradas, das festas, da rua.

A segunda “perturbação” também é gerada por uma escolha estética do roteiro e do diretor. Em nenhum momento os motivos que levaram Ivan à cadeia são explicitados. O espectador é, então, obrigado a travar contato com o protagonista de forma direta, através de suas ações, sua dinâmica familiar, seus encontros com a psicóloga do programa e suas audiências judiciais. Incomoda ao espectador perceber que, mesmo sem ter ciência do panorama completo, é inevitável pegar-se julgando aquela pessoa/personagem.

Mas o maior mal-estar do longa ocorre de ele nos obrigar a ver o que, diariamente, o cidadão das classes média e alta tornou invisível aos seus olhos. Sem recursos melodramáticos, Corpo Delito expõe a vida de uma camada da sociedade que vive em estado de emergência, que incorpora a tal segunda tragédia de Eagleton. É uma gente que, imersa na pobreza, alijada de direitos básicos, vive uma vida com um sistema de valores e rituais que nós, criaturas do “outro lado”, aprendemos a não enxergar. Se a cena em que uma mãe visita o túmulo do filho morto por envolvimento no crime choca, choca ainda mais por revelar a nossa cegueira seletiva, a cena em que, em um diálogo na cozinha, a esposa do protagonista conta que sonhou que o morto vinha avisar que o próximo seria o marido dela. Do mesmo modo, a sequência que mostra, durante o carnaval de rua, a Polícia abordando os rapazes da favela e revistando-os no meio do bloco incomoda por esfregar na nossa cara que esses dois mundos coexistem e, mais ainda, a mim incomodou ver que aquelas pessoas, no momento em que os policiais chegam, já sabem exatamente que gestos fazerem, como se portar durante a revista, como se, ao longo da vida, já tivessem ensaiado uma liturgia bizarra e macabra.

No fim, os setenta e quatro minutos de exibição moldam uma relevante e oportuna discussão sobre o sentido de liberdade. A conclusão, se conclusão há, é, antes de tudo, desconfortável. E mostra que a poeta sabia do que falava quando escreveu  “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

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