Eu queria começar essa crítica pedindo desculpas a vocês, leitores, pelo fato de eu não ser mulher e, principalmente, de eu não ser mãe. Assim que meus olhos marejados terminaram de assistir Crimes de Família, eu tive a certeza que, fosse eu mulher e mãe, seu impacto teria sido ainda mais devastador do que efetivamente foi. O lado bom disso, contudo, é que, mesmo não sendo mulher e mãe, eu não só gostei sobremaneira do filme como saí bem abalado dele, o que pode, portanto, ser visto como uma prova cabal da inegável qualidade desta produção original da Netflix.

Confesso que comecei a assistir com um pé atrás, uma vez que as obras originais Netflix da Argentina que eu resenhei foram todas realmente lamentáveis (“Edha” e “Perdida“, por exemplo), mas com um fiapo de esperança porque o filme não só é estrelado pela primeira-dama da dramaturgia argentina, Cecilia Roth (uma espécie de Meryl Streep portenha em comparação livre e possivelmente despropositada), como é dirigido pelo outrora documentarista Sebastián Schindel, responsável por obras que analisam crimes e o sistema massacrante que os processa, como “O Filho Protegido“, também disponível na Netflix. Felizmente, meu fiapo de esperança se mostrou correto e, muito pela beleza da interpretação de Cecilia Roth, mas principalmente por causa do magistral roteiro co-assinado pelo próprio diretor, temos aqui uma daquelas obras que vão além e se tornam não só recomendáveis, como também necessárias.

Roth interpreta Alicia, uma senhora de classe alta, cidadã de bem, moradora da Recoleta em Buenos Aires, casada com um industrial aposentado torcedor do River Plate e cristã. Se isso te faz encontrar alguma similaridade com as classe média alta do nosso país, é simplesmente porque esse tipo de gente, “bastião” da meritocracia e de tudo que é bom, pode ser facilmente encontrado em qualquer país, mas com muito mais facilidade naqueles onde a desigualdade social se mostra mais contumaz como é o caso da Argentina ou do Brasil. Aqui jaz um dos pontos nodais do filme e do brilhantismo do roteiro, uma vez que toda a narrativa gira em torno do tratamento que o sistema dá ao pobre fodido e ao cidadão com algum na conta do banco.

Por um lado, acompanhamos o sofrimento do filho de Alicia, Daniel (Benjamín Amadeo), o mauriçola filhinho de papai clássico (e mais não conto por medo de spoilers). Daniel vem tendo alguns problemas com a ex-esposa por causa da guarda do filho dos dois. Por outro lado, vemos como o sistema tritura a doméstica de Alicia, Gladys (Yanina Ávila, excelente), aquele tipo que dorme no serviço, algo que, em países menos desiguais, só a realeza tem, mas que na Argentina (como no Brasil e no restante da América Latina) qualquer sujeito de classe média alta pode ter porque a mão de obra do preto pobre é baratíssima. Se a carne mais barata do mercado nacional é a carne negra, na Argentina é a carne indígena, curiosamente chamados pejorativamente de negros por gente como Cecília.

A estrutura narrativa tem uma sofisticação tal que sequer sabemos em um primeiro momento quais são os crimes de Daniel e Gladys. Isso não importa. O que importa é mostrar como Daniel, loiro, do olho claro e com a grana do papai por trás tem um milhão de alternativas; enquanto que a Gladys, pobre, com ascendência indígena e que nem o nome da mãe sabe, resta tão somente aguardar o seu inevitável destino atrás das grades. É uma vez estabelecido isso, com cenas que se alternam no tempo de forma simples e ao mesmo tempo intricada, que passamos a acompanhar os dois pontos principais da obra. É na sororidade e no amor de mãe de Alicia que todo o arco da obra encontra seu propósito, com a sua dor quando diante da verdade, suas atitudes impensáveis para tentar salvar a cria e seu instinto maternal maior do que tudo.

Apresentando, portanto, uma crítica óbvia ao sistemas de castas tão evidente, ao mito da meritocracia no contexto geral de uma sociedade e à hipocrisia de uma sociedade que chama o branco do Leblon de usuário e coitado e o preto da Rocinha de traficante e bandido, Sebastian Schindel traz uma obra redondinha, clara e, como já dito necessária, em especial por ser baseada em acontecimentos reais, o que dá a ela uma legitimidade ainda mais premente diante da sucessão de absurdos que vão se se amontando no terço final do filme.

Com um quê de “Aquarius” e “Que Horas Ela Volta?” que ficará óbvio para aqueles que, como eu, são apreciadores destas duas obras, Crimes de Família é mais um excelente exemplar da cinematografia argentina, obrigatório para todos que estiverem abertos a escutar.

 

 

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