Em 2005, o falecido Stieg Larsson lançava o primeiro livro de sua trilogia “Millenium”, o último grande best-seller internacional do gênero policial de que se tem notícia. Ao mesmo tempo, ele também popularizava um novo gênero policial que já fazia algum sucesso nos países escandinavos, aquele que se convencionou chamar Nordic Noir, ou Noir Nórdico. Mais do que meramente apresentar um caso policial e então acompanhar a sua resolução e a descoberta final de quem foi o assassino ou coisa que o valha, este gênero se preocupa mais com o desenvolvimento de personagens e com o comentário social de uma realidade que, de fora, parece perfeita e acima de qualquer crítica, mas que, de dentro, é tão doentia e putrefata quanto qualquer outra.

Tendo, em geral, mulheres um tanto perturbadas como protagonistas, as obras audiovisuais do gênero também costumam seguir uma mesma lógica visual. Pouca maquiagem, fotografia um tanto lúgubre e erma, roteiros que se preocupam muito mais com o personagem do que com o avançar da trama detetivesca principal e temas que invariavelmente denunciam a dicotomia nessa tal sociedade perfeita em que nada acontece, mas que esconde pedófilos, assassinos e estupradores como em qualquer outra.

Em geral, quando um gênero explode como este, vários são os oportunistas que tentam surfar na mesma onda e capitalizar em cima também, mas, felizmente, a produção escandinava do gênero que chega a nós tem mantido um bom nível de excelência com séries como a também finlandesa “Bordertown”, a dinamarquesa “The Killing” e a islandesa “Trapped” (todas disponíveis na Netflix), ou o inacreditavelmente maravilhoso filme norueguês “Headhunters”, ainda que, às vezes, acontece de alguém fazer uma bobagem como a argentina “Desaparecida” (outro original Netflix).

Em Deadwind, temos todos os elementos consagrados do gênero. Uma detetive, cujo nome é o título original da série, chamada Sofia Karppi (Pihla Vitala) acaba de voltar a trabalhar na divisão de homicídios de Helsinki pouco depois da morte acidental de seu marido, o que a deixou com um filho de seus 8 anos e uma enteada de 17 para criar. Quase que imediatamente após a sua volta, o corpo de Anna Bergdahl (Pamela Tola) é encontrado enterrado, com um buquê de flores cuidadosamente colocado em suas mãos, na área onde uma empresa chamada Tempo, de propriedade do Willem Dafoe genérico Alex Hoikkala (Tommi Korpela), construirá uma espécie de condomínio eco-correto alimentado por energia eólica.

Auxiliada pelo detetive mauriçola Sakari Nurmi (Lauri Tilkanen), Sofia vai desafiar a tudo e a todos para tentar desvendar este crime enquanto se vê às voltas com uma trama onde tudo é o que parece ser até que não é mais, em uma claríssima tentativa de evitar o luto pela morte de seu marido. “Teria sido melhor que você tivesse morrido ao invés do papai”, diz seu filho de 8 anos sem qualquer malícia ou intenção de magoar, mas com a inocência de que sente falta do pai que, ao contrário da mãe, sabia jogar futebol com ele. Ela, assim como aquela sociedade, não acusa o golpe, mas o sente brutalmente.

O criador e diretor da série, Riki Jokela, inova um pouco ao misturar aqui alguns elementos clássicos dos filmes de detetive em uma em uma série que certamente agradará em cheio àqueles que gostam do gênero e procuram uma nova dose a alimentar seu vício.

Deadwind é uma série longa, pesada e um tanto difícil de se maratonar, mas que funciona de forma bastante competente dentro da sua proposta, no que é, e muito, auxiliada por um roteiro enxuto e um elenco bem azeitado, com destaque para o viúvo de Anna Bergdahl, Usko (Jani Volanen), uma pessoa que já parecia morta por dentro antes da morte de sua esposa e que consegue morrer mais um pouquinho depois.

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