Não tem pouco tempo que as produções audiovisuais têm investido na temática de “zumbis”. Na verdade, esse assunto sempre esteve contemplado por diversos títulos ao longo da História do Cinema, mas aparentemente há uma atenção bem significativa dada atualmente. Talvez porque os humanos do dia a dia estejam cada vez mais se assemelhando a estas bestas que não pensam, não se importam, não veem nada além do alvo que precisam atingir. Ou talvez pelo simples fator apelativo (não em um sentido ruim) dessa “mitologia”. Mas a consequência de tantas produções que mergulham nesse universo é um esforço grande para que uma história “nova” seja contada, não incorrendo em sequências semelhantes que definem o lugar-comum. Desenfreado resgata o assunto, porém em uma época nada atual.

Lee (Hyun Bin) é um príncipe herdeiro de um reino no qual o monarca é deveras centralizador e precisa manter seu governo firme para impedir que conspirações sejam bem-sucedidas, além de conviver com o delicado conflito entre dinastias. De todo modo, essa parte histórica pouco importa, pois em nenhum momento a narrativa nos contextualiza historicamente sobre nada (o que não é defeito algum). Lee, portanto, viaja com seu “assessor-faz-tudo” (que se assemelha mais a um bobo da corte, servindo de alívio cômico durante o desenvolvimento da trama), quando descobre que a região está sofrendo o ataque de pessoas com características monstruosas, que se alimentam de carne humana viva, infectando e transformando suas presas. Isso que conhecemos como “zumbis” é tido por eles como “demônios”. O palco, então, está montado: brigas dinásticas, conjurações e ataque zumbi a um só tempo. O príncipe herdeiro deverá batalhar com todos esses lados para conseguir salvar o seu povo. Povo esse do qual ele mantinha certo distanciamento até então.

O monarca centralizador.

Com suas longas e desnecessárias 2h de duração, Desenfreado apresenta bons momentos nos quais aprofunda algumas discussões. A ilustração do zumbi no contexto usado (a briga pela manutenção de um governo) é especialmente bem-vinda no momento em que vivemos nacional e internacionalmente. O medo de que aquilo que transforma pessoas em bestas (seja no sentido animalesco/monstruoso da palavra, seja em seu sentido cognitivo) pode contagiar e proliferar, colocando toda uma nação em risco de colapso e inserindo-a em um caos auto-imputado talvez seja o que de mais interessante o filme propõe. Essa alegoria funciona perfeitamente e encaixa devidamente na enxurrada de notícias pelas quais somos violentados diariamente. O zumbi nesse conto, portanto, assume características de vilania com muito mais profundidade do que um simples monstro do qual você tem que escapar em uma luta cotidiana de sobrevivência. Aqui, o elemento comum a vários filmes se torna um tanto mais complexo e lapidado. Outro ponto de destaque da obra de Sung-hoon Kim é o modo como esta jornada de luta e medo transforma o príncipe herdeiro (nosso protagonista) de um membro frio da família real para alguém que vê a importância que o povo tem para sua nação: “Um povo não depende de um rei para existir. O rei depende do povo para existir”, conclui nosso personagem. A partir do momento em que o governo entende seu grupo como algo além de fantoches bestializados (aqui no sentido cognitivo da palavra mesmo), então caminha-se efetivamente para a concreta construção de uma nação.

No entanto, não é só de acertos que esta produção é feita. Há alguns erros que, infelizmente, competem com os bons elementos, chegando a superá-los, na maior parte das vezes. O principal é a já aludida longa e desnecessária duração, quando se investe em muitas (mas muitas mesmo!) cenas de batalha entre humanos e zumbis. Espada e tiros para cá e para lá. Mais espada, tiros e flechas e tochas para cá e para lá. Quase como em um jogo de videogame no qual uma fase puxa a próxima e você, incansável, precisa destruir mais e mais monstros. Há cenas desse tipo, uma atrás da outra, que não configuram um núcleo dramático agregador para a narrativa. Isso torna o desenvolvimento da trama cansativo e pouco interessante. Além disso, vemos na fraca construção de seus personagens (em especial o do vilão, na figura de Kim Ja-joon, encarnado por Dong-Gun Jang) um outro problema que atrapalha a inserção do espectador no universo proposto por Sung-hoon Kim. O vilão chega a esboçar certa profundidade, em uma das melhores cenas de diálogo do filme, mas para por ali, esbarrando na infantilidade de um antagonista cuja construção não parece respeitar a própria “mitologia” sugerida durante o desenrolar do conto.

O príncipe herdeiro diante do caos.

Apesar de tentar apresentar uma construção que fugisse ao lugar-comum dos demais filmes de zumbi, Desenfreado fica no limite entre o “novo” e o “comum”, perdendo-se em outros elementos que resultam em um título, por vezes, chato, repetitivo e pouco apaixonante. A empatia pelos personagens não promove uma relação absoluta com seu espectador; as camadas de profundidade que estão ali não são exploradas de maneira acertada; e a avidez por passar a sua mensagem ao público transformam os bons elementos em detalhes dentro de uma realização que ataca a si mesma, fazendo diminuir sua força e suas características que poderiam ser marcantes.

Sugestões para você: