Sempre amei o deserto. Alguém se senta em uma duna de areia do deserto, não vê nada, não ouve nada. No entanto, através do silêncio algo pulsa e brilha …”

Desertos são extremos. Em todos os níveis. A frase acima, de Saint-Exupéry, o papai do Pequeno Príncipe, aponta para isso. Há um mistério, um chamado, um presságio naquela vastidão toda. É nessa paisagem e em todo seu potencial metafórico que Jonás Cuáron ambienta seu segundo longa como diretor, chamado justamente (surpresa!) de Deserto.

A premissa é simples e fácil de resumir: um grupo de mexicanos atravessa o deserto tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Entre eles encontra-se Moises (Gael Garcia Bernal), nosso mocinho. No meio da travessia, eles têm o desprazer de cruzar o caminho de Sam (Jeffrey Dean Morgan), um psicopata preconceituoso, cujo maior prazer é, na companhia de seu cão Tracker, matar mexicanos no deserto. A história vira, então, uma luta pela sobrevivência.

(Precisamos falar do cachorro. Cães são fofos. Amamos cães. Meu pug Tequila, embora naturalmente possuído pelo ritmo ragatanga, alegra os meus dias e me faz feliz. Mas Tracker não é um cão. É a encarnação do demônio. O pior cachorro da história do cinema. Você se sente culpado, mas torce pro bicho ser morto. É verdade.)

Mas, após esse interlúdio canino, voltemos ao filme. No geral, Deserto é uma obra correta, bem realizada, mas a sensação final que deixa é a de ser apenas isso: um filme correto. Não explode, não arrebata. Numa metáfora carioca, o filme é uma espécie de Imperatriz Leopoldinense nos anos 90: tecnicamente irrepreensível, cumpridora de cada quesito, mas incapaz de emocionar, faltando sempre aquele elemento que, na falta de palavra mais adequada, vamos chamar de magia.

Esse esplendor técnico começa na inspirada fotografia de Damian Garcia. Imagens do deserto são lindas até no Instagram de contadores de férias em Las Vegas que, entre um cassino e outro, decidem dar uma espiadinha na paisagem. O pulo do gato de Garcia aqui foi não cair na tentação de glamourizar a paisagem. As imagens se destacam pelo que têm de cru, tiram do cenário o ar maligno que, potencialmente, aquele bioma assume. Na mesma pegada, destaca-se o som do longa. O trabalho é feito com tal apuro que leva ao pé da letra a definição de “desenho de som”. Tanto o som direto quanto os efeitos sonoros ganham corpo na tela.

O mesmo já não se pode dizer da trilha sonora. Composta por Woodkid, ela cai na armadilha do gênero thriller: a redundância. A música parece, o tempo todo, duplicar o que já está sendo mostrado na tela, causando um efeito nem um pouco sutil, que esbarra fácil na deselegância. Escrito a quatro mãos, as do diretor e de Mateo Garcia, o roteiro também não é de uma solidez completa, oscilando entre momentos de brilho e outros de pura obviedade.

Talvez a maior falha do texto esteja na construção das personagens principais. Enquanto o Moises de Bernal ganha uma tentativa de profundidade (embora bastante melodramática), o vilão de Jeffrey Dean Morgan carece de total explicação sobre a motivação de seus atos. Ao longo da narrativa não há um vislumbre sequer da raiz de seu pathos. Apesar do raso texto, os dois atores dão conta de forma bastante adequada de seus papéis. A direção de Jonás Cuáron (sim, o sobrenome é esse mesmo, ele é filho do grande Alfonso) também se mostra adequada. Firme, mas não se destacando para além do produto que se vê em tela.

Em entrevistas no lançamento do filme (aliás estreia tardia em terras brazucas), o diretor disse que queria deixar o espectador na ponta da poltrona enquanto assistia. Isso ele consegue. Deserto funciona como thriller. Não é inesquecível, mas é uma boa diversão.

 

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