Some of those that work forces are the same that burn crosses“. Zack de la Rocha cospe na cara do sistema com esses que são dois dos poucos versos “Killing in the Name”, repetitiva e fantástica. A repetição é para escancarar a mensagem. Fazendo uma referência à membros da Klux Klux Klan que queimavam cruzes como forma de ritual, ele diz que há racismo por trás de formas de poder de um Estado. Em especial em nações que a questão racial é intrínseca às suas próprias formações, como o caso de países que foram colonizados. E na polícia dos EUA, conhecidos por um longo histórico segregacionista drasticamente estrutural, não é diferente.

No filme Detroit em Rebelião, Kathryn Bigelow traz à superfície a história da cidade americana durante o fim da década de 60, quando passou por uma efervescente revolta diante da opressão policial. Situado em 1967, três anos após a Lei dos Direitos Civis à negros americanos (1964) ter sido promulgada e no ano em que o voto se efetivou universal de fato, vemos na narrativa a história entrelaçada de jovens que se tornaram reféns daqueles que deviam lhes garantir, em tese, a segurança. A polícia, em todas as suas alçadas, falha em fornecer abrigo e torna-se, mais que tudo, objeto de temor e desprezo por parte da população negra. 

Início da rebelião em Detroit, que teve como estopim a revolta diante da prisão de jovens que celebravam reservadamente a chegada de um amigo da guerra.

Dismukes (John Boyega) está de plantão para uma empresa de segurança privada e tem como trabalho vigiar lojas contra os “vandalismos” da rebelião. Enquanto homem negro morador da região, ele é tido como um traidor. No entanto, sem muitas opções de emprego, faz o trabalho e tenta ajudar, até onde seu alcance permite, a amenizar as injustiças que vê. O personagem é só um cara querendo ganhar o seu e que, apesar de discordar da forma brutal que a policia trata seus iguais, acaba se corrompendo em parte. Se de início podemos ter um olhar de reprovação à Dismukes, com um pouco mais de sensibilidade entendemos que ele é oprimido também no sistema e, infelizmente, sozinho não tem a voz necessária para mudar muito, apesar de um cargo de maior relevância ou ligação com a raiz do problema.

É em sua jornada de trabalho que ele acaba fazendo parte, muito para tentar contornar ou amenizar, de uma longa noite de coerções, torturas físicas e psicológicas e racismo escancarado. Policiais das redondezas entram em um hotel e mantém de maneira desumana seus hóspedes, majoritariamente negros (salvo duas mulheres brancas que estavam acompanhadas por um negro). A partir daí vimos o horror do preconceito e indignamo-nos com uma história que é baseada em fatos reais – e me parece bem fiel a eles – e que é só a ponta do iceberg de um problema ainda atual na sociedade americana.

Ameaça, uso indevido de força e humilhação.

Por fim, após absurdos em sequência, os policiais deixam o local com três jovens mortos à sangue frio. Ora, mas agora as vítimas testemunharão e tudo será resolvido na justiça. Certo? Não. No melhor dos mundos, esse seria o lógico. Mas os Estados Unidos, aquele que tinha institucionalizado leis segregacionistas, naquele momento não poderia seguir o justo. No tribunal, onde brancos estão nos postos de decisão (juízes e juri) e também, enquanto réus, privilegiados pelo posto Estatal, a justiça falha miseravelmente.

Historicamente contemplativo, Detroit em Rebelião se apresenta na linha tênue do documentário e da ficção, finalizando como um filme bem equilibrado e dirigido. Interessante também por abordar, ainda que brevemente, o impacto daquele evento na vida das pessoas, antes distanciadas do ativismo, agora cada vez mais próximas da luta por seus direitos de forma integral. A temática do longa é mais que necessária e não direi, jamais, que foi usada em demasia pela indústria. Através da escolha de um evento de grande repercussão à época, mas que caiu um pouco no esquecimento, a diretora aborda o racismo e cospe, com gosto, num sistema ainda muito manchado por ele. Uma reflexão que será, atemporalmente, necessária.

“Those who died are justified, for wearing the badge, they’re the chosen whites.”

 

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