O mais novo lançamento da Netflix já vem amargando pesadas avaliações por parte da crítica especializada. Muitos têm repetido uma mesma orientação em suas falas: “um filme qualquer de máfia, insosso e sem despertar grande interesse”. Parece-me, no entanto, que esta interpretação acerca da obra foi assumida pela grande maioria, inclusive por quem traduziu o título do filme: “Dívida Perigosa“, ao invés do literal (The Outsider) “aquele que vem de fora” ou “o forasteiro” (muito embora, eu considere mais sutil a primeira proposta). Não incorrerei num absurdo aqui: o de dizer que esse ou aquele espectador/crítico não entendeu o filme. Para mim, isso é inexistente. No entanto, eu divirjo seriamente tanto da avaliação dos colegas, quanto da visão que tiveram acerca da produção de Martin Zandvliet.

Nick Lowell (Jared Leto em atuação soturna) é um ex-soldado americano que está encarcerado no Japão durante o pós-II Guerra Mundial. Dentro da prisão, acaba por salvar a vida de um integrante da Yakuza, Kiyoshi (Tadanobu Asano), com quem inicia uma relação de amizade. Quando ambos conseguem liberdade, Kiyoshi traz Nick para seu universo. O americano passa a ser um dos membros da Yakuza, assumindo muitas das características desses mafiosos. Apesar – e isso é uma coisa na qual insisto muito quando falo de remakes americanos sobre filmes asiáticos – da concepção e visão acerca das relações serem completamente diferentes daquelas previstas na “América” (que ocidental teria a honra de realizar um harakiri ao se considerar desleal?), Nick fará de tudo para se ver, cada vez mais, como parte de seu novo grupo. Muito embora – é evidente – a grande maioria de seus companheiros o veja como “aquele que vem de fora” (olha aí a importância do título original, em detrimento de sua tradução).

Nick em busca de identificação.

E é exatamente nesse momento que essa história passa a ser, para mim, algo que não foi para os demais. Ao integrar a Yakuza, Nick participa de uma “guerra” entre dois grandes grupos mafiosos do Japão: o liderado pelo pai de Kiyoshi, um homem velho, versus o outro, que apresenta um líder bem mais jovem e ambicioso. Pelas críticas que li por aí (somente após ter visto o filme), Dívida Perigosa seria só mais uma história de mafiosos em disputa, não trazendo nada de novo ou de efetivamente interessante; além de uma narrativa pouco envolvente. Para mim – como venho pontuando – esse é tão somente o cenário no qual o principal conflito se desenvolve. Trata-se da história de um homem que deseja se identificar com algo, já que não se vê mais como costumava ser. Nick não é mais o soldado americano; ele é um Yakuza. Mas para a maioria dos japoneses ele é um “branquelo estrangeiro”.

Uma cena simples, porém forte, marca em definitivo essa concepção acerca da obra: Nick encontra um ex-companheiro das Forças Armadas que, prontamente, o reconhece. Sem demonstrar qualquer emoção em relação ao encontro pelo acaso, os dois tomam um drink enquanto conversam. Nick, após anos e anos longe de casa, veria no conterrâneo um pouco da saudade das terras onde nasceu? Não! Como disse, Nick já não é mais aquilo (ou, talvez, nunca tivesse sido). Não à toa, em um piscar de olhos, o novo membro da Yakuza abre um rasgo no pescoço do militar americano. Esse é seu rito de passagem. Lowell se vê, definitivamente, como parte de seu novo grupo (ainda que, como supracitado, muitos não o aceitem como tal).

A transformação de Nick.

As cenas que se desenvolvem em relação ao cenário de guerra entre os mafiosos me são tão menos interessantes, já que as vejo como um pano de fundo para o verdadeiro conto que está a se desenrolar: identidade e identificação. Um pensador, certa vez, indagando acerca do nacionalismo (sentimento de pertencimento a uma nação) alegou que um indivíduo pertence ao país que ele escolheu, independendo de nascimento, origem ou nome; valendo-se, apenas, de sua identificação com o lugar. Nick é prova dessa identificação, que perpassa qualquer ligação lógica ou de legislação. Não à toa, mesmo em meio ao cerco provocado pelo grupo inimigo, ele não bate em retirada. Permanece, pois ali – e não outro – é o seu lugar. É aquilo a que ele pertence.

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