A nova obra suave da Netflix é algo que pode se esperar de todo e qualquer filme com os seguintes elementos: adolescentes, high school, comédia e Estados Unidos. Junte isso tudo em um pote e sairá algo de bem docinho dali. Talvez demasiado doce que resultará em um leve enjoo de início. Sabe aquela iguaria que é gostosinha, mas que não rola se ficar comendo o tempo inteiro ou por muito tempo? Então, utilizando a linguagem figurada que o título original nos sugere (Candy Jar – pote de doces, no literal), essa é a impressão que o filme de Ben Shelton ocasiona em seu espectador mais sério.

Logo na primeira cena, somos apresentados aos dois protagonistas e seus pensamentos – um em relação ao outro: trata-se de Lona (muito bem encarnada por Sami Gayle), menina branca e estudiosa; e Bennet (pelo inspirado Jacob Latimore), menino afro-descendente e estudioso. Ambos são tão focados na escola que um compete com o outro seu destaque na Instituição. Eles fazem parte do grupo de debatedores que participam de campeonatos regionais, ávidos por preencherem seus currículos e serem aceitos nas melhores universidades do país (ela sonha com Harvard e ele com Yale). Aliás, cabe aqui um parênteses: eles mais se assemelham a candidatos para fazer parte da equipe do Garotinho e narrar jogos da série B em qualquer estação AM, porque o que eles fazem não é debater e, sim, falar o mais rápido possível – é qualquer coisa de tão grotesco que nem legenda tem, nessas partes. Demasiado americano para mim.

“Espelho, espelho meu”.

A rixa dos personagens é mera reprodução e continuidade do conflito existente entre as mães de cada qual, quando eram igualmente “colegas” durante o Ensino Médio (na verdade, cada uma faz uma projeção de si própria em seus filhos – típico). A quebra de estereótipo, porém, nos apresentas a família negra como extremamente rica e a branca como classe média baixa (apesar disso, um age como o estereótipo daquela minoria bem-sucedida e o outro como o estereótipo daquele que se sente vitimizado por uma força etérea). Mas essa relação muda quando a tão sonhada disputa de debatedores se torna impossível depois que as mães de ambos discutem em público durante um evento do Colégio. A única forma de participarem, agora, é com a condição de debaterem em dupla. Logo aqueles que nunca concordaram em nada e que sempre se viram como rivais. Dessa forma, todas as suas diferenças terão que ser superadas se quiserem, de fato, almejar as universidades para as quais se preparam há mais de uma década. Uma vitória nesta espécie de campeonato é tiro certo para a aceitação no Ensino Superior.

A história nos parece óbvia a partir daqui – e se você reclamar que eu dei spoiler, amigo, deixa de ser ingênuo cinematográfico! Como disse, é óbvio! A preparação frenética dos dois juntos, a cada dia, encontrando-se, discutindo, frequentando um a casa do outro, aproximará os antigos rivais e fará nascer entre eles uma relação bastante sólida; e que resultará (mais uma vez, vamos lá, é óbvio!) em romance ou prenúncio de um. Porém, é exatamente nesse mesmo momento que eles se perguntam algo muito sincero: para que tudo isso? E se a faculdade for uma mera continuidade do que foi o Ensino Médio (festas, zoeira, ninguém sério, foco em algo por 14 horas diárias para depois trabalhar e continuar da mesma forma robotizados)? – eles estavam certos, parceiro; a faculdade é onde você encontra a maior concentração de imbecil por metro quadrado (pelo menos, a minha foi assim). De que terá valido?

A distância entre eles.

Quando surge esse conflito interno nos nossos protagonistas, uma chama se acendeu em mim e eu pensei “que filme legal, vai quebrar a lógica americana do esforço recompensado”. Fosse um filme inglês, eles largariam o estudo, usariam droga e se divertiriam espancando pessoas na rua. Daria uma história mais legal. Mas o pensamento americano sempre se mantém. Ainda assim, eles continuam em sua caminhada para entrarem na faculdade. Não que esteja errado; mas nos dá a impressão que aquele sincero e sério conflito de outrora fora guardado dentro de cada um deles, escondido e suprimido para que eles possam fazer o papel social que se espera deles. Pena a cinematografia americana ser tão “doutrinadora”, impedindo-os de levar em consideração que “abençoados são aqueles que quebram as regras” (Vorphalack).

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